
Se existe um tipo de K-Drama que desperta a curiosidade — e, ao mesmo tempo, um certo receio — é aquele que tenta misturar gêneros demais. The WONDERFools (더 원더풀스) chega com essa proposta: combinar comédia, super-heróis, mistério e ação em um cenário inspirado no final de milênio, quando o mundo parecia à beira de um colapso pela paranoia do ano 2000. No papel, pode parecer apenas um caos de ideias. Na prática, porém, a viagem surpreende.
Embarquei muito mais pela tripulação (elenco) do que pelo plano de voo (premissa). Se Cha Eun Woo já é motivo suficiente para o check-in, Park Eun Bin é o reforço para carimbar o passaporte e dar o play na maratona. Apesar de um início meio caótico, o percurso reserva momentos de puro entretenimento. Embarca comigo?
Ficha técnica: The WONDERfools
Série: The WONDERfools (더 원더풀스)
Data de Estreia: 15 de maio de 2026
Número de Episódios: 8
Emissora: Netflix
Direção: Yu In Sik
Roteiro: Heo Da Joong
Elenco principal: Park Eun Bin (Eun Chae Ni), Cha Eun Woo (Lee Un Jeong), Im Sung Jae (Kang Ro Bin), Choi Dae Hoon (Son Gyeong Hun) e a lista completa
Gênero: Ação, Aventura, Comédia, Fantasia
Resumo
No fim da década de 1990, quando o medo do apocalipse tomava conta da população, a desastrada Eun Chae Ni (Park Eun Bin) vê sua vida mudar completamente após um acidente inexplicável lhe conceder um superpoder. Seus vizinhos Kang Ro Bin (Im Sung Jae) e Son Gyeong Hun (Choi Dae Hoon) são igualmente agraciados com habilidades extraordinárias nada convencionais. Sem saber como usar seus novos dons, a rotina atrapalhada desses “heróis” vira um caos absoluto.
A ordem é estabelecida com a chegada do misterioso e regrado funcionário público Lee Un Jeong (Cha Eun Woo), que começa a investigar uma série de desaparecimentos em Haeseong. Entre perseguições, confusões e muitas situações absurdas, nasce um grupo improvável de defensores da justiça que precisará salvar a cidade antes que seja tarde demais.
Quando o caos encontra equilíbrio
À primeira vista, The WONDERFools parece reunir elementos demais em uma única produção. É uma comédia de super-heróis ambientada em 1999, recheada de mistério, conspirações científicas, humor pastelão, ação e momentos mais dramáticos. Uma mistura tão ambiciosa sempre corre o risco de perder o equilíbrio. Felizmente, bastam alguns episódios para a série encontrar seu próprio tom e provar que todo esse caos fazia parte do plano.
Mais do que contar uma história sobre pessoas comuns adquirindo superpoderes, o K-Drama aposta em personagens profundamente imperfeitos, daqueles que conquistam aos poucos pelos erros e pelas trapalhadas. E talvez seja isso que torne a jornada tão fácil de acompanhar. Quando a narrativa finalmente encontra seu ritmo, o humor absurdo, as boas cenas de ação e os laços de amizade passam a caminhar juntos de forma surpreendentemente natural, transformando a produção em uma das experiências mais divertidas do ano.
Um universo caótico, absurdo e envolvente
Os primeiros episódios caminham em um ritmo mais lento e apostam em um humor exagerado. Em alguns momentos, Eun Chae Ni, Ro Bin e Gyeong Hun parecem caricaturas ambulantes, fazendo tanta confusão que fica difícil criar uma conexão imediata com o trio.
Curiosamente, essa sensação é intencional. As reações constantemente exasperadas de Lee Un Jeong diante da combinação inusitada traduzem exatamente o que nós sentimos no início. Quando a narrativa engrena, porém, fica claro que todo esse exagero servia para apresentar personagens completamente despreparados antes de colocá-los diante de desafios muito maiores.
É no final do terceiro episódio que The WONDERFools encontra seu verdadeiro ritmo. O mistério envolvendo Haeseong ganha força, as relações amadurecem e o humor passa a conversar muito melhor com a ação e os momentos dramáticos.
A direção de Yu In Sik também merece destaque. A ambientação em 1999 vai além da nostalgia da virada do milênio e influencia diretamente a atmosfera da história. Somam-se a isso uma fotografia caprichada, bons efeitos visuais e movimentos de câmera criativos que tornam até as cenas mais caóticas fáceis de acompanhar.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
O resgate de Chae Ni no episódio 6 resume bem esse trabalho. Enquanto batalhas e explosões acontecem ao redor, a câmera permanece centrada na protagonista, transformando o caos quase em uma coreografia. É uma sequência divertida, muito bem executada e que resume perfeitamente o espírito da série. ⚠️
Desajustados por natureza, heróis por acaso
Se o roteiro encontra seu equilíbrio depois dos primeiros episódios, é o elenco que garante que a proposta funcione do começo ao fim. Afinal, uma série tão caótica só convence quando acreditamos em quem conta a história.
Park Eun Bin talvez entregue aqui uma das personagens mais diferentes de sua carreira. Depois de papéis mais contidos, como em Extraordinary Attorney Woo e Castaway Diva, ela abraça uma protagonista impulsiva, extravagante e completamente imprevisível. No início, a interpretação parece até exagerada, mas basta entender o tom de The WONDERFools para perceber que esse excesso faz parte da identidade de Chae Ni.
Ao lado dela, Choi Dae Hoon e Im Sung Jae completam um trio que lembra três Minions soltos pela cidade enquanto Lee Un Jeong tenta desesperadamente impedir o próximo desastre. A amizade entre eles parece antiga desde o primeiro momento, e boa parte das risadas nasce dessa dinâmica caótica e das situações completamente sem noção que eles criam.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
A cena em que Gyeong Hun tenta dar uma bronca em Seok Ju Ran, sem deixá-la sequer terminar uma frase, é hilária. O mesmo vale para a sequência em que ele e Chae Ni atravessam a cidade rolando pelo chão enquanto tentam escapar da manipulação mental da vilã. Sem falar no enorme mascote inflável em forma de cebola. ⚠️
Cha Eun Woo interpreta um personagem muito mais contido do que o restante do elenco, atuando como o contraponto da história. Grande parte de sua atuação acontece através do olhar, da postura e de pequenas mudanças de expressão.
💡 Menção especial: Kim Hae Sook transmite enorme carinho como a avó Jeon Bok e ajuda a construir uma das relações familiares mais bonitas da série, enquanto Son Hyun Joo apresenta um antagonista frio e convincente.
Vale a pena o check-in em The WONDERfools?

The WONDERFools não tenta ser uma grande história de super-heróis que lutam para salvar o mundo nos mesmos moldes de Hollywood. Na verdade, o K-Drama usa esse universo apenas como ponto de partida para falar sobre amizade, pertencimento, superação de traumas e a capacidade que pessoas completamente comuns têm de fazer coisas extraordinárias.
O humor pode parecer exagerado e o ritmo demora um pouco para engrenar. Mas quem aceita essa proposta acaba encontrando uma produção divertida, criativa (dentro do seu próprio mundo) e surpreendentemente envolvente.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
A reta final entrega algumas das cenas de ação mais empolgantes da série. Entre elas, destaca-se o momento em que Un Jeong impede uma chuva de balas usando seus poderes telecinéticos antes de incendiar novamente o laboratório. É uma sequência visualmente impactante que mostra como a direção sabe transformar grandes confrontos em momentos memoráveis. ⚠️
Guia de Bordo de The WONDERfools
- 🛫 Decolagem: leva algum tempo para esquentar os motores, mas quando está pronto para voar estabelece bem o universo e seus personagens.
- 🍱 Serviço de Bordo: boa química do elenco principal, com destaque para o entrosamento hilário entre o trio de desastrados e o protagonista recluso.
- 🛋️ Conforto do Assento: roteiro equilibrado que mistura comédia afiada, mistérios do passado e momentos de forte apelo emocional.
- 📍 Desembarque: final agitado, repleto de ação, momentos comoventes e ainda deixa espaço para novas aventuras.
⭐ Status do Passaporte: Embarque Recomendado! O início pode passar por pequenas turbulências, mas ao longo da viagem proporciona uma experiência divertida, criativa e cheia de personalidade.
The WONDERFools talvez seja um dos K-Dramas mais “descompromissados” de 2026. A série tem o mesmo tom “popcorn flick” (leve, rápido e fácil de assistir) de Cashero, só que com um humor nonsense bem mais afiado. Dentro do seu universo caótico, a obra mostra que, às vezes, as viagens mais memoráveis são aquelas que parecem improváveis na hora do embarque.
Entre tanta confusão e superpoderes descontrolados, quem provou que não é preciso ser um herói perfeito para conquistar o público? ˆ-ˆv