
Alguns K-Dramas chegam ao lounge de embarque do Hasta La Tour com uma passagem cheia de promessas: amnésia, primeiro amor, gangues, investigação criminal e uma mentira que pode virar romance. Our Sticky Love (이런 엿 같은 사랑) embarca nessa mistura, adicionando uma cidadezinha do interior, personagens secundários que rapidamente viram parte da família e aquele tipo de protagonista que parece ter saído diretamente de um catálogo de oppas.
A premissa tem potencial para um rom-com bem divertido, mas também levanta aquela sobrancelha desconfiada de quem já viu mais clichês do que gostaria. Entre um Jung Hae In extremamente fofo, cenas visualmente delicadas e algumas derrapadas de ritmo pelo caminho, a série coreana resgata a atmosfera de produções como Hometown Cha-Cha-Cha e Spring Fever, mas acrescenta vilões de gangue e uma pitada de reconexão do passado. Embarca comigo?
Ficha técnica de Our Sticky Love
Série: Our Sticky Love (이런 엿 같은 사랑)
Data de Estreia: 7 de agosto de 2026
Número de Episódios: 12
Emissora: Netflix
Direção: Kim Jang Han (My Demon, Do You Like Brahms?)
Roteiro: Mo Ji Hye
Elenco principal: Jung Hae In (Jang Tae Ha), Ha Young (Go Eun Sae), Heo Sung Tae (Baek Sang Gil) e a lista completa
Gênero: Romance e Comédia
Resumo
A ambiciosa promotora Go Eun Sae (Ha Young) perde a memória após um acidente enquanto investigava uma poderosa organização criminosa. Ao acordar em uma clínica no interior sem lembrar seu próprio nome ou profissão, ela encontra Jang Tae Ha (Jung Hae In), um ex-boxeador que abandonou o ringue para entrar no mundo das gangues. Para protegê-la e deixar sua vida de crimes para trás, ele mente dizendo ser seu namorado. Será que esse romance consegue colar mesmo quando a história começa com uma mentira?
Quando a memória perde a passagem de volta
No papel, Our Sticky Love reúne praticamente tudo o que a gente já está acostumada a ver em comédias românticas coreanas: cidade pequena no interior, comunidade desconfiada que logo vira família, o clássico reencontro com o primeiro amor da juventude e uma pitada de thriller. A fórmula não é exatamente inédita. O problema, porém, está menos nos ingredientes e mais na forma como eles são apresentados.
O primeiro episódio é um pouco confuso e arrastado, deixando a sensação de que o K-Drama demora para decidir qual história realmente quer contar. A partir do segundo, o fluxo melhora, especialmente quando os flashbacks no Japão começam a explicar a relação entre Tae Ha e Eun Sae. Ainda assim, essa melhora não se mantém de maneira totalmente regular: a série alterna momentos que fazem a trama avançar com outros em que os clichês de cidade pequena e algumas situações cômicas parecem alongar uma jornada que poderia ser mais direta.
Um roteiro que encontra o caminho aos poucos
A história dos dois começa a ganhar forma quando voltamos no tempo. Tae Ha já era um gângster após largar uma carreira promissora como boxeador, enquanto Eun Sae estava estudando para se tornar promotora. Durante o reencontro no Japão, ele a reconhece como seu primeiro amor, ela não faz ideia de quem ele é.
Esses flashbacks também rendem alguns dos melhores momentos visuais da produção. As ruelas japonesas, o nascer do sol na praia e a fotografia mais contemplativa ajudam a construir uma atmosfera delicada para o passado dos protagonistas. No presente, a direção repete essa sensibilidade em detalhes como a varanda de madeira da casa de Tae Ha, iluminada pelo sol, e até uma cena em que sua silhueta projetada na parede reflete toda a carga emocional do personagem sem dizer nada.
E é aí que o roteiro mostra que menos poderia ter sido mais. A trama tem bons elementos, mas recorre com frequência a situações familiares, especialmente na dinâmica de cidade pequena e nas reações cômicas um pouco forçadas. O thriller, que inicialmente poderia parecer um excesso em um rom-com, acaba tendo uma função importante: as cenas de ação são bem executadas e dão ao enredo um impulso que o romance, sozinho, talvez não conseguisse sustentar.
O plot twist que muda a densidade do jogo
Mas nem sempre isso é aproveitado. A série encontra bons ganchos, mas algumas revelações poderiam ter recebido mais espaço para realmente transformar a trajetória dos personagens. É o caso de uma das principais viradas da trama.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
Um dos maiores potenciais desperdiçados está na revelação de que Baek Sang Gil é pai de Tae Ha. A descoberta de que ele estava diante do próprio filho sem saber — depois de ter contribuído para afastá-lo do boxe e colocá-lo no mundo das gangues — é uma das viradas mais interessantes. Pena que o roteiro não aproveite esse segredo por mais tempo, porque ele poderia ter tornado o conflito muito mais forte. ⚠️
A chuva que finalmente muda de significado
Talvez o melhor exemplo de como Our Sticky Love brilha quando aposta no simbólico esteja no episódio 5. A conexão do casal começa, gradualmente, a migrar do fake para algo verdadeiro, através de pequenos gestos. Ao viajar para Seul em busca de pistas sobre sua identidade, Eun Sae encontra um par de meias e um MP3 player cuidadosamente separados por Tae Ha em sua sacola de remédios: itens que confortavam suas memórias de infância no orfanato.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
Quando começa a chover, Eun Sae desiste da viagem e retorna para Tae Ha. Ela aparece diante dele com um guarda-chuva amarelo. Para ele, a chuva sempre esteve associada a memórias dolorosas, como a doença de sua avó ou o dia em que abandonou o boxe.
Ao escolher ficar ao lado dele em mais um momento que tinha tudo para aumentar sua carga de dor, a chuva, aos poucos, começa a ganhar outro significado. O episódio termina com um beijo debaixo do guarda-chuva, com um enquadramento cinematográfico, valorizado pela iluminação noturna e pela atmosfera da cena. ⚠️
O final traz a virada de chave definitiva para essa mudança de significado da chuva, reescrevendo todas as associações ligadas a ela.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
Durante o casamento de Tae Ha e Eun Sae, começa a chover. Só que Tae Ha já não reage à chuva como antes. O elemento que durante boa parte da história estava associado à perda, à doença da avó, ao abandono do boxe e aos momentos mais dolorosos da sua vida agora acompanha uma lembrança feliz. A chuva não mudou, o significado dela mudou. É uma maneira bonita de mostrar que Tae Ha finalmente conseguiu reescrever memórias tristes com uma experiência feliz e marcar o início de uma vida nova. ⚠️
Cidade pequena, grandes clichês
A reta final da série coreana segue a cartilha já conhecida das comédias românticas, mas encontra espaço para alguns momentos que escapam do piloto automático.
⚠️ >> Alerta de Spoiler!
O episódio final traz aquela clássica união de todos os moradores da vila pacata para enfrentar a gangue criminosa, gerando cenas divertidas e movimentadas. Romances secundários encontram seus pares e todo mundo celebra seu próprio final feliz. É previsível? Sem dúvida.
O que mais marca é o pedido de casamento de Tae Ha: extremamente fofo e criativo. Ele esconde a caixinha com o anel na coleira do cachorro e espera a Eun Sae encontrá-la para então se ajoelhar com o buquê de flores nas mãos. *-* ⚠️
Ah, e uma curiosidade divertida no episódio 6: enquanto conversavam sobre casamento, Eun Sae aparece assistindo ao K-Drama When Life Gives You Tangerines no celular! Um easter egg fofo para quem acompanhou. ˆˆ
Quando Jung Hae In fala sem dizer uma palavra
Se há um motivo para engatar o cinto e maratonar esta série, é Jung Hae In. O ator dá um show de nuances ao transitar sem esforço do modo namorado tímido e carinhoso para o modo gângster com olhar gélido durante as cenas de ação. Como o personagem fala pouco, o trabalho expressivo do ator impressiona: o sorriso bobo ao ser chamado de oppa, a timidez diante dos avanços de Eun Sae e o afeto genuíno com a avó roubam a cena.
Por outro lado, a atuação de Ha Young infelizmente não me convenceu. Recentemente, ela entregou uma performance memorável como a noiva de Na Hwa Jin no Teach You A Lesson. Porém, aqui ela tem todos os traços de uma protagonista clássica de rom-com: determinada, impulsiva e cheia de reações exageradas. O problema é que essas características acabam parecendo forçadas em vários momentos.
O elenco de apoio traz algumas surpresas agradáveis. Lee Jun Young, como Kaito, aparece pouco, mas deixa sua marca na tentativa de fuga pelo barco e no confronto final. As versões adolescentes de Tae Ha e Eun Sae, interpretadas por Ha Min Hyeok e Choi Myung Bin, também fazem participações pontuais, porém importantes para a construção do passado dos protagonistas.
As senhoras do grupo S.E.S. são particularmente divertidas, o subordinado de Tae Ha tem um bom timing cômico e até as idas e vindas entre o médico e a enfermeira ajudam a deixar aquele sabor de comunidade de séries ambientadas em cidades pequenas do interior.
Uma trilha para costurar passado e presente
A OST de Our Sticky Love ganha força principalmente quando o K-Drama intercala diferentes momentos da vida de Tae Ha. As músicas acompanham a revelação de segredos familiares e ajudam a ampliar a melancolia das lembranças ligadas à mãe, à avó e ao pai com quem ele nunca teve a chance de compartilhar uma relação de pai e filho.
A trilha sonora também se sobressai na cena da varanda, enquanto os dois observam a neve cair e folheiam um álbum de fotos. A decisão da direção de fugir dos clichês de caminhadas na praia ou em um parque cheio de flores para trazer uma reflexão sobre a vida que construímos e as memórias que permanecem, principalmente através das imagens que registram essa existência, é uma escolha simples e bonita para fechar a história.
Vale a pena o check-in em Our Sticky Love?

Our Sticky Love não chega a ser um K-Drama marcante, mas também está longe de ser uma viagem perdida. A série é previsível, recorre bastante aos clichês do gênero e, em alguns momentos, força a mão nas situações cômicas. O ritmo também derrapa pelo caminho, fazendo com que determinados trechos pareçam mais longos do que os 12 episódios sugerem.
O que equilibra a experiência é a atuação de Jung Hae In, o cuidado da direção nas cenas mais sutis e o arco emocional de Tae Ha, especialmente na forma como a chuva ganha um novo significado em sua vida.
Para quem gosta de rom-coms mais lentos, romances ambientados em cidades pequenas e aquela mistura de leveza com um pouco de ação, pode ser uma viagem agradável. Só não espere uma produção que vá permanecer na memória por muito tempo depois do desembarque.
Guia de Bordo de Our Sticky Love
- 🛫 Decolagem: começa um pouco confuso e arrastado, mas encontra um ritmo melhor já a partir do segundo episódio com os flashbacks no Japão.
- 🍱 Serviço de Bordo: Jung Hae In assume o controle do voo com uma atuação cheia de nuances, equilibrando tudo apenas com o olhar.
- 🛋️ Conforto do Assento: o roteiro tem bons elementos, mas se apoia demais nos clichês do gênero e poderia ter desenvolvido antes seu plot twist do final.
- 📍 Desembarque: um final previsível, mas simbólico e emocionalmente satisfatório, especialmente na relação de Tae Ha com a chuva.
⭐ Status do Passaporte: Voo com Conexão! Uma comédia romântica leve e previsível, que vale o play principalmente pela atuação envolvente de Jung Hae In e pelos momentos mais delicados da direção.
Our Sticky Love é aquele K-Drama que segue uma rota conhecida, sem grandes surpresas no itinerário. Você chega ao destino sem arrependimento, mas também sem aquela vontade de exibir o carimbo no passaporte para as amigas dorameiras. A jornada de Tae Ha e Eun Sae tem momentos bem desenvolvidos, principalmente quando a série fala sobre reconstruir memórias e encontrar uma nova definição para felicidade.
Não é uma rota imperdível entre os lançamentos de 2026, mas pode ser uma boa escala para quem estiver procurando uma rom-com simples, previsível e com Jung Hae In em seu melhor modo “fofo, mas perigoso”.
Se você pudesse escolher uma memória dolorosa para ressignificar com uma nova lembrança feliz, qual seria? 🌧️ ˆ-ˆv