
À primeira vista, Nokemono-tachi no Yoru (The Tale of Outcasts) parece embarcar naquela rota conhecida das fantasias que colocam uma jovem humana ao lado de uma criatura sobrenatural. A ambientação na Inglaterra vitoriana do final do século XIX serve de pano de fundo para um confronto secular entre demônios antropomórficos e uma ordem sagrada. No entanto, o foco não está na luta entre o bem e o mal.
O anime escolhe trilhar um caminho mais silencioso. Seu maior trunfo não está na complexidade do worldbuilding, no desenvolvimento do character arc ou na ostentação de batalhas épicas, mas na relação entre Wisteria e Marbas: duas almas solitárias em um mundo hostil que encontram refúgio na companhia um do outro.
Com uma proposta que mistura fantasia urbana e dilemas morais de uma sociedade marcada por conflitos históricos, a história acompanha a jornada de uma órfã, um demônio imortal e os laços que essa dupla constrói pelo caminho. Nesta busca por um lugar onde possam viver em paz, a obra mostra que, às vezes, pertencer não significa ser aceito por todos, mas encontrar alguém diante de quem você não precisa se sentir um estranho. Embarca comigo?
Ficha técnica: The Tale of Outcasts
Anime: The Tale of Outcasts 「ノケモノたちの夜」
Estreia: 8 de janeiro de 2023
Episódios: 13
Estúdio: Ashi Productions (Kekkon suru tte, Hontou desu ka, Eris no Seihai)
Adaptação: mangá de Hoshino Makoto
Gênero: Ação e Fantasia
📺 Onde Assistir: Crunchyroll
Wisteria Langley vive de forma miserável em algum canto do Império Britânico no final do século XIX. Órfã e submetida a uma vida de exploração, ela possui uma habilidade incomum: consegue enxergar demônios, criaturas que a maioria dos humanos sequer percebe. É assim que ela conhece Marbas, um poderoso ser imortal com aparência bestial que também carrega sua própria solidão e, movido pela curiosidade, passa a visitá-la para escapar do tédio.
Os dois fazem um pacto e passam a viajar juntos em busca de um lugar onde possam viver em paz, enquanto enfrentam humanos desconfiados, demônios com seus próprios interesses e a Sword Cross Knights, organização dedicada à caça dessas criaturas.
O peso da solidão e os laços que desafiam preconceitos
A comparação com The Ancient Magus’ Bride e Sacrificial Princess and the King of Beasts é praticamente inevitável. As três obras partem de uma estrutura semelhante: uma garota isolada do mundo estabelece um vínculo com uma criatura sobrenatural poderosa e passa a enxergar uma realidade que os demais humanos não conseguem compreender.
Mas existe uma diferença na forma como The Tale of Outcasts constrói esse vínculo. Wisteria e Marbas não precisam caminhar rumo a um romance para que sua relação tenha peso. Aqui, a dinâmica ganha força pela amizade que nasce da convivência e, gradualmente, começa a preencher lacunas na vida de ambos.
Inicialmente entediado pela imortalidade, Marbas passa a se comportar como guardião e companheiro, preocupado com o bem-estar dela. Wisteria, por sua vez, vivia jogada à própria sorte desde que foi separada do irmão, mas o encontro com Marbas trouxe luz para um mundo vazio. Wisteria oferece a Marbas uma razão para se importar. Marbas oferece a Wisteria a segurança de ser cuidada. E esse é, para mim, o elemento que mais sustenta a história.
Um mundo com potencial limitado pelo pacing
O conceito de outcasts está presente tanto no título quanto na estrutura da narrativa. Wisteria é uma humana marginalizada. Marbas é um demônio que vive afastado dos demais. Diana Blackbell carrega o peso de uma família que perdeu seu lugar na sociedade. Snow passa por uma série de provações para tentar recuperar a conexão com a irmã. Mesmo com trajetórias diferentes, os personagens compartilham algo em comum: não cabem completamente no mundo em que vivem.
Esse tema aparece também na divisão entre humanos e demônios. A sociedade de The Tale of Outcasts estabelece uma fronteira clara entre os dois grupos, sustentada por medo, preconceito e uma longa história de conflitos. Os contratos entre humanos e demônios apenas tornam essa relação ainda mais desconfortável.
O problema é que o worldbuilding raramente vai fundo nessa ideia, e o ritmo não contribui para expandi-lo. A organização dos caçadores de demônios e a história por trás do grupo conhecido como Thirteen Calamities poderiam receber muito mais espaço.
Com apenas 13 episódios para cobrir 8 volumes do mangá, a adaptação precisou condensar os acontecimentos. O anime consegue entregar o básico, mas peca em aprofundar a mitologia de seu próprio universo. Durante boa parte do tempo, a estrutura é episódica: Wisteria e Marbas viajam, encontram um problema, superam uma ameaça e seguem adiante.
⚠️ >> Alerta de spoiler!
Na reta final, Wisteria fica presa no mundo das memórias do irmão, enquanto acontecimentos do passado vêm à tona. É um conceito com enorme potencial para abordar temas como abandono, solidão e pertencimento. Porém, tudo é resolvido tão rápido que não há tempo suficiente para essas ideias amadurecerem, e sobra pouco espaço para o impacto emocional. A sensação é de que existe uma história maior escondida atrás daqueles episódios, mas estamos vendo apenas uma versão condensada dela. ⚠️
Bons personagens, pouco desenvolvimento
Wisteria atua mais como centro emocional do que como protagonista de ação. Sua trajetória é essencialmente sobre recuperar autonomia depois de uma infância marcada pela exploração e pela separação do irmão. Ela não precisa se tornar uma personagem extremamente poderosa para justificar sua presença. O mais interessante está em observar sua capacidade de escolher por quem lutar e onde deseja estar.
Marbas é o personagem mais memorável da dupla. Sua aparência de fera contrasta com uma personalidade que vai ficando progressivamente mais afetuosa. A graça está nessa mudança silenciosa: ele começa protegendo Wisteria porque existe um pacto entre eles e termina fazendo isso porque ela passou a importar para ele. Snow tem uma motivação simples: reencontrar a irmã e garantir que ela esteja segura.
No elenco secundário, alguns personagens se sobressaem. Diana e Naberius trazem uma dinâmica diferente, especialmente porque Diana precisa lidar com as expectativas de sua família enquanto Naberius desempenha o papel de tsundere em forma de lobo, manifestando afeto mais por atitudes do que por palavras.
Sol e Iberta talvez sejam os que mais demonstram o quanto o anime poderia ter aproveitado melhor suas histórias paralelas. Seus conflitos ajudam a humanizar a Sword Cross Knights e acrescentam peso às escolhas feitas no final. Vale mencionar ainda as aparições divertidas das versões de Sherlock Holmes e Dr. Watson.
Direção de arte consistente e uma trilha sonora acolhedora
O estúdio Ashi Productions entrega um trabalho consistente em termos de produção. Cores ricas, iluminação bem trabalhada e bons níveis de detalhe ajudam a construir a atmosfera do anime. O grande destaque da direção de arte está nos designs dos demônios antropomórficos, especialmente nas texturas das pelagens de Marbas e Naberius e nos enquadramentos em close.
As sequências de ação não apresentam uma fluidez extraordinária. Elas cumprem a função narrativa, mas raramente encontram uma linguagem visual particularmente marcante. É uma adaptação competente, porém pouco ambiciosa. E isso resume bem a experiência geral de The Tale of Outcasts.
A trilha sonora desempenha um papel importante na construção da atmosfera vitoriana e melancólica. A abertura “Ashita no Katachi”, cantada por Taketatsu Ayana, que também dá voz a Wisteria, estabelece um tom acolhedor e acompanha a simbólica sequência das três batidas na janela durante os encontros noturnos com Marbas. Já “Rewrite”, da banda Hakubi, eleva o ritmo com um rock alternativo que encerra os episódios com mais energia.
Veredito: pertencimento que encontra força nos laços

The Tale of Outcasts pode não ser o melhor representante da dark fantasy. A história poderia explorar melhor seu mundo, o conflito entre humanos e demônios precisava de mais profundidade e o pacing deixa claro que a adaptação tinha pouco espaço para desenvolver tudo o que gostaria. Ainda assim, existe uma razão para dar uma chance apesar dessas limitações: Wisteria e Marbas. Eles encontram um no outro algo que nenhum dos dois tinha antes: um lugar seguro para pertencer.
Se você gosta de ambientação vitoriana, criaturas antropomórficas, demônios de visual marcante e histórias sobre laços entre personagens que vivem à margem da sociedade, existe uma passagem disponível para essa rota. Não é uma viagem sem turbulências, mas pode ser uma boa escolha para quem valoriza mais a companhia durante o percurso do que a complexidade do destino.
Pontos Positivos:
- Relação de proteção, cuidado e confiança mútua entre os protagonistas.
- Trilha sonora com boas escolhas de opening e ending.
- Boa ambientação histórica na Inglaterra vitoriana.
Pontos de Atenção:
- Estrutura episódica, sem um plot central muito definido, e pacing acelerado na reta final.
- Worldbuilding pouco elaborado, desenvolvimento irregular dos personagens e uma narrativa sem grandes surpresas.
Para quem é: fãs de fantasia urbana com ambientação histórica, personagens peludos como Marbas e Naberius e de histórias sobre laços de amizade, proteção e pertencimento.
Guia de Bordo de The Tale of Outcasts
- 🛫 Decolagem: uma premissa familiar que ganha força pela relação entre Wisteria e Marbas.
- 🍱 Serviço de Bordo: a dupla de protagonistas cativa pela cumplicidade, enquanto os coadjuvantes carecem de maior aprofundamento.
- 🛋️ Conforto do Assento: a aventura episódica mantém a viagem agradável, mas o ritmo perde equilíbrio quando a história chega à reta final.
- 📍 Desembarque: o potencial estava lá, mas os últimos episódios aceleram quando a trama precisava desacelerar.
⭐ Status do Passaporte: Voo com Conexão! Uma viagem agradável e sem grandes surpresas, que vale a pena para quem busca uma história de amizade, proteção e pertencimento entre uma humana e um demônio.
The Tale of Outcasts não permanece na memória pela grandiosidade de sua fantasia, mas pela simplicidade de seu coração. Wisteria e Marbas não precisam salvar o mundo para que sua jornada tenha significado: basta que encontrem um lugar onde possam viver sem precisar se preocupar por serem diferentes.
Se você pudesse escolher um companheiro de viagem entre os demônios da série, ficaria com Marbas, Naberius ou arriscaria a sorte com uma das outras Thirteen Calamities? ˆ-ˆv
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