
Depois de consolidar uma das identidades solo mais reconhecíveis do K-Pop, Taemin (태민), do SHINee (샤이니), abre uma nova etapa com PHASE 1 : Soft Violence. O álbum de 11 faixas chega com o início da turnê mundial LiMiNaL — com passagem confirmada pelo Brasil mais uma vez — para inaugurar um novo capítulo artístico em sua carreira. Os primeiros sinais desta fase surgiram no palco do Coachella, mas é no EP que eles ganham forma.
“Soft” e “Violence” parecem incompatíveis, mas é nessa fricção que Taemin molda a tracklist. De um lado, a intimidade, a delicadeza e o romance. Do outro, o desconforto, o desejo e os conflitos por trás de uma superfície bonita. O conceito gira em torno da “violência suave”: a beleza cruel de perder ou transformar a si mesmo por amor. E isso combina especialmente com um idol que há anos transforma música, dança, moda e simbolismo em partes inseparáveis de sua linguagem como solista.
Já “PHASE 1” expõe uma estratégia de longo prazo. Em uma indústria movida por ciclos ágeis, mapear a própria discografia em fases evidencia maturidade e ambição estética. A dupla de titles, “FLOAT” e “Gooey”, servem como porta de entrada para dois ângulos diferentes de sua nova faceta artística. Embarca comigo?
“FLOAT” flutua por uma delicadeza inquietante
Se o título do álbum sugere tensão, “FLOAT” começa pelo caminho mais gentil. A primeira title track cria uma atmosfera leve, guiada por um pop suave, ritmos de garage drum e instrumentos analógicos. A voz do Taemin desliza suavemente sobre a melodia, como se estivesse flutuando por ela. Uma boa forma de abrir o disco e apresentar seu lado mais íntimo.
“Everytime I’m with you, I just float”
A letra fala sobre deixar a solidão para trás e encontrar, na presença de outra pessoa, uma espécie de suspensão da rotina, trazendo aquela sensação de encantamento que o amor pode provocar. Taemin não precisa forçar a interpretação. Seu vocal acompanha a leveza do arranjo e faz da própria voz parte da textura da música.
A delicadeza, porém, ganha outra leitura quando chega ao visual. O MV coloca Taemin em um cenário completamente branco, também vestido de branco, enquanto ele esculpe uma figura humana que parece ganhar vida quando uma chave em formato de coração é encaixada em suas costas. É uma imagem bonita, mas também estranha — e é justamente aí que Soft Violence começa a aparecer por baixo da superfície.
A direção aposta em monocromia, espaços minimalistas e expressividade corporal, aproximando o vídeo de uma instalação de arte contemporânea. A figura criada por Taemin pode ser lida como uma extensão do próprio conceito: dar vida a algo belo também significa assumir o controle sobre ele. O resultado deixa “FLOAT” mais inquietante do que sua produção inicialmente sugere.
“Gooey” troca a leveza pela intensidade
Se “FLOAT” representa o lado mais suave da primeira fase, “Gooey” desloca o álbum para um terreno mais físico. A estrutura da segunda title track tem uma cadência mais densa, enquanto efeitos aplicados à voz alteram seu timbre em determinados momentos — recurso que cria personalidade, embora torne a faixa menos imediata aos meus ouvidos.
É no palco, porém, que “Gooey” encontra sua melhor tradução. Sem um MV, o vídeo de performance coloca a dança e a presença cênica de Taemin no centro da experiência, mostrando por que sua música solo raramente termina na gravação de estúdio. A coreografia dá corpo à tensão da faixa e faz dela uma aposta particularmente interessante para o ao vivo.
Entre as duas titles, minha conexão é claramente maior com “FLOAT”. Mesmo assim, a escolha de colocá-las lado a lado funciona em uma fase que já chega marcada pelo contraste. Enquanto uma flutua, a outra prende o corpo ao chão.
Destaques do comeback
- “Killing Part”: o solo final de violino em “1004”, que se dissipa suavemente até Taemin encerrar a faixa sussurrando “one thousand four”.
- Bastidores: Taemin assina a composição de seis faixas do álbum e recebe créditos nas letras de quase todo o disco, com exceção de “FLOAT” e “SKIN”.
- Para quem gosta de…: a linha mais experimental de Guilty, Eternal e Veil, além da vibe mais orgânica do The Rose. O estilo também lembra um pouco o Ten como solista.
B-sides de PHASE 1 : Soft Violence
Depois de acompanhar o contraste das duas titles, é a vez das b-sides ditarem o tom e, ao longo do álbum, elas também se alternam entre a leveza confortante e o melodrama obscuro. “Sober” dá continuidade à fluidez de “FLOAT”, mas adiciona uma textura mais etérea e contemplativa. “Let Me Be The One” e “Easy Loving You” formam uma boa dupla: são as duas faixas easy listening, que mantêm o álbum em uma frequência mais relaxada.
Do lado mais denso de PHASE 1 : Soft Violence, “1004” se destaca pelo peso mais dramático e arranjos imponentes. Em “SKIN”, a sonoridade ganha contornos misteriosos sobre um instrumental de fluxo marcado. Já “PARASITE” e “Frankenstein” carregam a assinatura mais clássica do Taemin: a primeira é uma faixa sombria e teatral que deve ganhar ainda mais corpo com uma coreografia que souber se aproveitar dela; a segunda traz um piano melancólico que eleva a carga emocional na voz dele.
O encerramento fica por conta de “This Is The End”, uma faixa de apenas 1:55 que funciona como um epílogo enigmático, uma pequena pista para a próxima etapa. Se este é o fim da primeira fase, talvez seja também a porta de entrada para a PHASE 2. “Permission” , disponível apenas no álbum físico, fica fora desta avaliação sonora.
✈️ Avaliação da Guia — PHASE 1 : Soft Violence
🛫 Status do voo
Altitude de cruzeiro: um disco conceitualmente forte e uma identidade artística muito clara
🎧 Experiência a bordo
Mood específico: uma seleção de contrastes como parte de um universo maior
💺 Assento
Janela: recomendada para quem aprecia obras conceituais e experimentais
📍 Destino
Uma galeria de arte contemporânea em penumbra, onde esculturas delicadas projetam sombras marcantes nas paredes
🗺️ Dados do voo
Tripulação: Taemin
Álbum: PHASE 1 : Soft Violence
Title Tracks: “FLOAT” e “Gooey”
Highlights: “Sober”, “1004”, “PARASITE” e “Frankenstein”
Embarque: 31 de agosto de 2026
Companhia: Galaxy Corporation
PHASE 1 : Soft Violence não propõe uma experiência completamente uniforme. A divisão entre delicadeza e tensão, romance e desconforto, suavidade e teatralidade fica perceptível conforme a tracklist avança. Em alguns momentos, essa mudança é mais brusca do que orgânica, mas ela reforça a própria contradição proposta pelo título e a disposição do Taemin em organizar sua identidade em novas camadas. E, considerando que esta é apenas a fase 1, o que será que vem depois?
Se ‘Soft Violence’ é a beleza escondendo alguma coisa por baixo da superfície, o que você acha que Taemin deixou escondido neste álbum? -ˆ-ˆ-v