
Picheolin (피철인), o conhecido alter ego de Dino (디노), transcende as brincadeiras internas dos conteúdos do integrante do SEVENTEEN (세븐틴) para se consolidar como um projeto musical autônomo. No álbum de estreia 吉BOARD, essa persona é encarnada como um produtor de rua da década de 1990, resgatando a nostalgia e a cultura das fitas cassete que marcavam as vias públicas da Coreia do Sul. A tracklist do debut solo reimagina a estética da época por meio de vertentes como EDM trap, new jack swing, city pop e hip-hop.
O título do EP resulta da fusão entre a palavra chinesa gil (sorte) e o termo board, em alusão às paradas da Billboard. Esse conceito remete diretamente aos rankings informais das feiras urbanas de Seul nos anos 90, período em que o sucesso popular de uma faixa era determinado pelos alto-falantes dos comerciantes locais.
Além do resgate nostálgico, a obra evidencia o amadurecimento de Dino nas funções de letrista e produtor. Tendo colaborado previamente na mixtape “Wait” e no solo “Trigger (DINO Solo)”, ele assina todas as letras e assume a coprodução de quase a totalidade do disco. Para estruturar essa atmosfera descontraída e a essência do heung — expressão coreana que define um entusiasmo coletivo e vibrante — Picheolin conta com colaborações de peso, incluindo Hitchhiker, Lee Hyun Do (DEUX) e Lee Moon Sae. Embarca comigo?
“Party Rock Rock”: quando o heung vira festa
Desde os instantes iniciais, “Party Rock Rock (놀아보세)“ deixa evidente o seu propósito principal por meio do verso “Let’s have fun while we’re young”.
Essa introdução direta sintetiza a mentalidade descomplicada adotada por Picheolin. Dino escolhe exaltar o cotidiano como uma grande celebração comunitária. Essa intenção de desfrutar o momento presente sem amarras ganha força ao longo da composição em trechos como “Every day is a toast”, “Look at me for a moment, one, two, three, kimchi” e “Today, raise the excitement even more, just do whatever you want”.
No aspecto musical, a produção assinada por Hitchhiker une passado e modernidade de forma harmônica. A faixa se apoia em uma estrutura contemporânea de EDM trap, enriquecida por nuances que evocam a vibração espontânea das festas de rua dos anos 1990. Com camadas densas de sintetizadores e uma linha de baixo marcante, a progressão contínua evita a monotonia e conduz o ouvinte a um refrão idealizado para ser cantado em coro.
A dinâmica da música ganha força na bridge, que reduz o ritmo estrategicamente antes de liberar a potência total do refrão, gerando uma catarse típica de grandes festivais ao ar livre. Para complementar essa atmosfera, a performance vocal de Dino mostra versatilidade ao transitar entre um tom descontraído e quase falado e momentos de forte projeção, dando vida ao perfil divertido e livre de Picheolin.
Visual & MV
O MV abraça completamente essa identidade, onde Picheolin aparece quase como um mestre de cerimônias. Tudo remete à proposta de um enorme festival popular, onde pessoas de diferentes origens e gerações dividem o mesmo espaço movidas pelo heung, conceito coreano que representa entusiasmo, energia coletiva e alegria compartilhada.
O figurino mistura referências vintage com um toque exagerado que combina perfeitamente com o personagem. Já a fotografia aposta em cores vibrantes, enquadramentos dinâmicos e movimentos constantes de câmera para fazer o espectador sentir que também faz parte da celebração.
Outro detalhe interessante é a participação especial da renomada coreógrafa Kany e da personagem Lee Myung Hwa, criada pela influenciadora Ralral, reforçando ainda mais a proposta de aproximar o universo de Picheolin da cultura popular coreana.
Destaques
- “Killing Part”: toda a parte conceitual do álbum é um presente para quem aprecia o estilo coreano mais tradicional dos anos 90.
- Bastidores: No Q&A sobre o debut, Dino revelou que escolheu gêneros capazes de representar não apenas diversão, mas também alegria, tristeza, raiva e prazer, porque queria mostrar todo o espectro das emoções humanas através do conceito de heung.
- Para quem gosta de…: som retrô na discografia de units do Super Junior, como Super Junior-83z (“GODOGNAM”), Super Junior-L.S.S (“JOKE”) e Super Junior-D&E (“Can You Feel It?”), além de “HANDO-CHOGA” (Daesung), “New Face” (PSY). Também lembrei de “That That” com o Suga do BTS pela vibe descontraída no estilo ‘let’s go crazy’.
B-sides de 吉BOARD
O bloco central do disco transita por uma rica variedade de sons. Em “Sincerely (정말)“, faixa que conta com a assinatura de Lee Hyun Do na produção, traz metais refinados, um forte senso de groove e um clima nostálgico marcante, em reverência a distintas eras da música popular coreana. “Mi-cheo Mi-cheo (미쳐 미쳐)“ preserva intacta a veia cômica que define a identidade de Picheolin, resgatando um dinamismo festivo que evoca o debut recente do Super Junior-83z.
O andamento muda por completo com “Love Sick (아프지 않은 이별은 없다)“, uma desaceleração profunda guiada pelas linhas sutis do piano e pela estética do city pop, onde a atmosfera intimista ganha ainda mais corpo com a introdução falada pelo veterano Lee Moon Sae.
Nas extremidades do álbum 吉BOARD, a abertura e o desfecho se destacam. “Zzan (짠)“ cumpre um papel excepcional como cartão de visitas. De sopros enérgicos a uma base robusta de hip-hop, a faixa abre com um entusiasmo contagiante. Para fechar o álbum com chave de ouro, “LIKE IT” se desenvolve em um instrumental meticuloso, servindo de palco para que Dino entregue uma performance vocal de crescente intensidade. A reação de aprovação sugerida pelo próprio nome da faixa faz jus ao que eu senti quando ouvi: “I like it”.
Por fim, “For JEONG and LOVE (정으로 사랑으로)“ é fortemente inspirada por uma abordagem retrô. A autoria solo de Dino na letra potencializa o sentimento de conforto.
吉BOARD detinha o potencial de se limitar a uma brincadeira descompromissada criada para introduzir uma persona exótica aos ouvintes. No entanto, o que Dino entrega é a edificação de um perfil artístico para Picheolin, apropriando-se de elementos históricos da cultura sul-coreana sem reduzi-los a um simples apelo saudosista. O álbum transita do entusiasmo festivo à melancolia, sob uma perspectiva descontraída e vibrante.
✈️ Avaliação da Guia — 吉BOARD
🛫 Status do voo
Um conceito muito bem definido e estruturado que vai agradar quem gosta do estilo
🎧 Experiência a bordo
Mood específico (para quem gosta de referências retrô, festivais e refrões para cantar junto)
💺 Assento
Conforto (vale a experiência mesmo para quem não costuma visitar esse estilo com frequência)
📍 Destino
Uma feira noturna iluminada por letreiros de neon, onde cada esquina guarda uma música pronta para reunir desconhecidos em uma festa única
🗺️ Dados do voo
Tripulação: Picheolin (aka Dino do SEVENTEEN)
Álbum: 吉BOARD
Title Track: “Party Rock Rock”
Highlights: “Zzan” e “Like It”
Embarque: 3 de agosto de 2026
Companhia: Pledis Entertainment (HYBE)
Alter egos no K-Pop costumam ir do cômico ao brilhante. Entre personas marcantes como Picheolin, Agust D ou as cinco identidades de Lisa em seu álbum de debut solo, qual idol conseguiu criar um universo paralelo que superou as expectativas do próprio fandom? -ˆ-ˆ-v