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[Review] Prism Rondo: um coming-of-age onde a arte encontra o amor

Review do anime Prism Rondo (Love Through a Prism): personagens Kit Church, Peter, Dorothy, Lili Ichijouin, Shin, Sakura e Joffrey

Há animes que parecem telas em branco esperando por nossa interpretação. Outros já chegam prontos como verdadeiras obras de arte — cheios de camadas e emoções que se revelam aos poucos, como um prisma refletindo diferentes cores conforme a luz muda. Prism Rondo (Love Through a Prism) é exatamente assim: um coming-of-age histórico que atravessa o tempo para retratar sonhos, inseguranças criativas e o medo silencioso de não ser suficiente.

Entre museus, academias de arte e paisagens costeiras que parecem sair de uma pintura a óleo, somos transportados para uma Londres do início do século XX, reimaginada com uma sensibilidade estética que transforma cada frame em uma composição digna de moldura.

Lançado como ONA em 15 de janeiro de 2026, o anime chegou na Netflix com 20 episódios disponibilizados de uma só vez. Conhecido por sua excelência técnica e direção artística cuidadosa, o Wit Studio entrega aqui uma das suas produções mais refinadas, utilizando a arte não apenas como pano de fundo, mas como a própria linguagem pela qual os personagens se comunicam, amadurecem e revelam seus sentimentos. Embarca comigo?

Ficha técnica: Prism Rondo

Anime: Prism Rondo 「プリズム輪舞曲」

Gênero: Drama e Romance

Número de Episódios: 20

Estreia: 15 de janeiro de 2026

Estúdio: Wit Studio (Owari no Seraph, Mahoutsukai no Yome, Koi wa Ameagari no You ni, Fate/Grand Order, Bubble)

Adaptação: ONA (Original Net Animation)


Resumo da obra

No início dos anos 1900, Lili Ichijouin embarca em uma viagem para estudar na prestigiada Saint Thomas Art Academy, na Inglaterra. Pressionada pelos pais a se tornar a melhor aluna da turma em apenas seis meses — ou retornar ao Japão — ela encontra em Londres não apenas uma nova cultura, mas também o peso das próprias inseguranças criativas. 

Sua determinação é colocada à prova quando ela conhece Kit Church, um aristocrata brilhante, talentoso e excêntrico que vive exclusivamente para a pintura. Unidos pelo amor à arte, mas guiados por visões e expectativas distintas, os dois constroem uma relação marcada por admiração, conflitos silenciosos e inspiração mútua — enquanto o mundo ao redor se transforma com os ventos da guerra. Neste drama histórico, cada escolha carrega o peso do amadurecimento e daquilo que somos capazes de sacrificar pelos nossos sonhos.

🖼 Imersão visual: uma animação que se torna pintura

Entrar no universo de Love Through a Prism é como caminhar por uma galeria onde as telas ganham vida pelo olhar dos personagens. A história nos convida a enxergar o mundo através de um prisma, onde cada emoção assume uma tonalidade própria e, quando unida a outras, compõe a complexa pintura da maturidade. 

A direção de arte transforma cada episódio em uma experiência sensorial. A paleta suave e quente convida a absorver o peso emocional das cenas com calma, de acordo com o que os personagens estão vivenciando. Um exemplo marcante disso ocorre logo nos primeiros episódios.

Lili carrega uma energia sincera e resiliente, lembrando um pouco a Caroline de Paradise Kiss e a Sakura de Sakura Taisen — protagonistas que também transitam entre sensibilidade e determinação. Já Kit chama atenção pela intensidade com que vive a arte e pela dificuldade em traduzir sentimentos em palavras, preferindo deixá-los implícitos em suas pinturas.

Londres como tela viva

A ambientação é um espetáculo à parte. Paisagens desenhadas como traços de pincéis, ruas europeias texturizadas, o brilho do sol refletindo no mar, o som distante das gaivotas — tudo compõe uma atmosfera tão vívida que desperta uma vontade quase irresistível de conhecer essa Londres do início do século XX retratada em Prism Rondo.

A cidade retratada pelo Wit Studio provoca uma nostalgia delicada, lembrando em certos momentos o charme detalhista das produções do Studio Ghibli, mas com uma identidade própria, mais sóbria e madura, alinhada ao tom de drama histórico da obra.

Eu não sei pintar, mas gosto de desenhar — embora faça tempo desde o último rabisco. Confesso que o anime reacendeu essa vontade criativa. De explorar horizontes, arriscar um esboço ou, quem sabe, registrar em fotografia os lugares que Lili percorre. É o tipo de anime que inspira sem precisar dizer explicitamente que está inspirando.

O que começa com um tom de slice of life visualmente encantador evolui, episódio após episódio, para algo mais profundo. As camadas emocionais se intensificam, os conflitos amadurecem e a narrativa deixa claro que este não é apenas um romance artístico, mas um anime sobre escolhas, identidade e o peso do crescimento — não apenas para Kit e Lili, mas também para Shin, Sakura, Dorothy, Peter e Joffrey.

🎨 Técnica impecável, sentimentos mal resolvidos

Embora o anime brilhe vivamente na estética, o desenvolvimento do romance central é um ponto que pode gerar debates interessantes. Vamos falar a verdade: Lili Ichijouin é uma protagonista esforçada, mas que pode testar a paciência de quem acompanha sua jornada. Suas indecisões e as explosões de raiva constantes sempre que Kit está por perto criam uma relação de amor e ódio com o espectador.

A incapacidade de Lili de se expressar em momentos cruciais é frustrante. Além disso, para quem gosta de contexto histórico, o comportamento “agressivo” dela soa um pouco deslocado; não condiz muito com a imagem das mulheres japonesas da era Meiji/Taisho, conhecidas pela reserva, especialmente em solo estrangeiro.

Por outro lado, Kit Church é o arquétipo do artista incompreendido. Ele expressa tudo através do pincel, mas falha miseravelmente na comunicação verbal. Embora sua determinação seja inspiradora, senti falta de mais vislumbres sobre seu passado para justificar seu distanciamento emocional e sua forma de interagir com as pessoas ao seu redor. Seu personagem parece nos atrair e repelir com o mesmo fôlego.

Romance ou apenas admiração artística?

Aqui está o ponto mais controverso de Prism Rondo para mim. A ideia de que Lili e Kit são “destinados” um ao outro é linda. Poética até. Mas a construção emocional deixa lacunas. Muitas vezes, o que vemos na tela é uma profunda admiração artística — não necessariamente amor romântico.

Eles se inspiram, se provocam e se desafiam como artistas, mas faltam conversas honestas.  O professor Brant reforça várias vezes a importância de expressar sentimentos com palavras, mas os protagonistas parecem ignorar o conselho. 

O paradoxo é evidente: em uma obra que exalta a arte como forma máxima de expressão, o romance é sustentado por palavras não ditas. Enquanto os quadros transbordam emoção, os diálogos evitam confronto. A estética comunica. Os personagens, não.

No fim, o relacionamento dos dois depende mais da interpretação do espectador do que de confirmações emocionais concretas.

Shin: o amor mais consistente da obra?

Para mim, o relacionamento que realmente rouba a cena por sua maturidade e construção é o de Lili e Kobayakawa Shinnosuke (Shin). Diferente de Kit, Shin ama Lili como pessoa — com seus medos, inseguranças e potencial de crescimento. Aqui, parece mais romântico do que admiração artística.

Curiosamente, as interações entre Lili e Shin são emocionalmente mais críveis. Vemos o cuidado, o respeito, o amadurecimento ao longo dos anos — especialmente na reta final com os acontecimentos que mudam o rumo dos personagens e afetam seus sonhos. Ele ama Lili de forma silenciosa, mas consistente.


Amizades que pintam o caminho

Se o romance central divide opiniões, são as amizades que dão sustentação emocional à narrativa. O arco de Catherine é um dos mais bem desenvolvidos. Sua evolução é uma das melhores da obra, pois não depende de um par romântico, mas de puro crescimento pessoal. Ela aprende a reconhecer suas fraquezas sem o escudo do orgulho aristocrático.

Uma frase do anime que resume bem a jornada de todos: “Você está vivendo sua vida ao máximo ou mentindo para si mesmo?”

É essa pergunta que move Peter em sua viagem pelo mundo, Dorothy na busca por formar sua própria família e Joffrey com o desejo de abrir seu pub em um espaço artístico. Cada um, à sua maneira, escolhe honestidade em vez de conveniência. 

Mesmo que nem todo amor seja feito para permanecer, todo sonho merece ser perseguido. E talvez essa seja a maior mensagem que fica gravada após os créditos subirem.

🖌️ O peso do realismo e a mudança de tom

Review do anime Prism Rondo (Love Through a Prism): personagens Lili Ichijouin e Kobayakawa Shinnosuke (Shin) vestindo kimono

Prism Rondo toma um rumo inesperadamente dramático na reta final, elevando o status de “drama histórico” para algo muito mais profundo e doloroso. Os últimos episódios abandonam o tom contemplativo. O que antes era tensão romântica e rivalidade artística ganha consequências inesperadas por conta de um evento macro inevitável.

O que colore o mundo

Arte como linguagem do amor

Talvez o verdadeiro romance de Love Through a Prism não seja entre duas pessoas, mas entre o artista e sua arte. Kit pinta Lili como sua única musa. Lili reencontra sua identidade através da pintura. Shin redescobre seu propósito na escultura. Catherine investe no futuro da amiga. Peter deseja espalhar arte pelo mundo. Todos são prismas refletindo luz uns nos outros.

Há uma sensação constante de nostalgia no episódio final, como se o amor estivesse atravessando o tempo, esperando o momento certo para retornar. 

🌈 Veredito: quando a arte fala mais alto que o romance

Love Through a Prism é uma experiência contemplativa para quem aprecia silêncios, paisagens detalhadas e histórias sobre amadurecimento. Visualmente, é uma das produções mais bonitas que eu já assisti. A direção valoriza enquadramentos longos, luz natural e composições que parecem sair de uma galeria de arte. Desde os primeiros minutos, a cinematografia e a fluidez da animação capturam o olhar — mas o que realmente sustenta a obra é o significado por trás da história.

O anime aborda sonhos, insegurança criativa e o medo de não ser bom o suficiente de forma honesta e sensível. A amizade entre Lili e Catherine é um dos pontos mais fortes da narrativa: genuína, madura e essencial para o crescimento de ambas.

Narrativamente, porém, pode frustrar. A dificuldade constante de comunicação entre Lili e Kit entra em conflito direto com o discurso sobre a importância de expressar sentimentos com palavras. Em diversos momentos, bastaria uma conversa honesta para evitar mal-entendidos. Essa ausência repetida de confronto emocional faz com que o romance pareça menos transformador do que poderia ser. Mas ainda assim entrega uma mensagem poderosa sobre ir atrás dos seus sonhos.

Por que pode valer a pena dar uma chance?

  • Excelência visual: se você busca um eye candy, o Wit Studio entrega cenários que parecem pinturas vivas. As paisagens de Londres são de tirar o fôlego.
  • Drama maduro: diferente dos romances escolares habituais, a história lida com pressão familiar, insegurança artística e o peso de escolher o próprio caminho.
  • Trilha sonora envolvente: o uso de músicas clássicas e trilhas sutis eleva o tom da narrativa sem sobrepor os sentimentos dos personagens.

Prism Rondo cresce com o tempo. Como uma pintura impressionista, talvez não revele todo o seu significado de perto, mas ganha força quando você se afasta e enxerga o conjunto. O clima é calmo, contemplativo e acolhedor. 

Não é para quem busca ritmo acelerado. É o tipo de anime para assistir à noite, com luz baixa e sem pressa. Para quem aprecia histórias guiadas por atmosfera, amadurecimento e sensibilidade visual, é uma experiência significativa. Seu maior mérito não está no romance e sim na forma como trata a arte como linguagem, identidade e refúgio.


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No fim das contas, você acredita que a conexão entre Lili e Kit era amor ou apenas admiração artística? Comenta aqui embaixo! ˆ-ˆv

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