
Enquanto muita gente curte o Carnaval, eu aproveitei para colocar minha maratona de séries coreanas e animes em dia. A finalizada da vez é uma produção que já estava na fila há algum tempo: Squid Game (오징어 게임). O que começa como uma proposta tentadora para pessoas à beira do colapso financeiro rapidamente se transforma em um pesadelo de jogos mortais inspirados em brincadeiras infantis. Aqui, a sobrevivência tem preço — e ele é medido em bilhões de wons.
Esse é o universo implacável criado por Squid Game: cenários coloridos e aparentemente inofensivos contrastam com uma violência brutal, enquanto a narrativa explora o lado mais sombrio da ambição humana e das engrenagens de um sistema que transforma desespero de uns em entretenimento para outros.
Lançada originalmente pela Netflix e conhecida também como Round 6, a série sul-coreana estreou em 2021 sob o comando do diretor e roteirista Hwang Dong Hyuk. A primeira temporada contou com 9 episódios e rapidamente se tornou um fenômeno global. O sucesso abriu espaço para uma continuação dividida em duas novas temporadas (2024 e 2025), expandindo uma história que, talvez, já tivesse dito tudo o que precisava logo no início. Embarca comigo?
Ficha técnica de Squid Game
Série: Squid Game (오징어 게임)
Gênero: Ação, Thriller, Psicológico e Drama
Número de Episódios: 22
- 1ª Temporada | 9 | 17 de setembro de 2021
- 2ª Temporada | 7 | 26 de dezembro de 2024
- 3ª Temporada | 6 | 27 de junho de 2025
Direção e Roteiro: Hwang Dong Hyuk
Elenco principal: Lee Jung Jae (Seong Gi Hun), Lee Byung Hun (Front Man), Wi Ha Joon (Hwang Jun Ho) e a lista completa
Tudo começa com Seong Gi Hun (Lee Jung Jae), um homem falido, viciado em apostas e emocionalmente à deriva — a ponto de perder quase tudo, inclusive o vínculo com a filha. Quando aceita um convite misterioso para participar de um torneio secreto, ele acredita estar diante de uma última chance de recomeçar.
Ao seu lado estão outros 455 jogadores igualmente endividados, incluindo o amigo de infância Cho Sang Woo (Park Hae-soo), envolvido em um escândalo financeiro. O prêmio prometido é 45,6 bilhões de won. A proposta parece simples. A realidade, nem tanto.
O que começa como uma competição inusitada rapidamente se transforma em um experimento cruel sobre sobrevivência, moralidade e até onde alguém é capaz de ir quando sente que não tem mais nada a perder.
Um jogo infantil que nunca foi brincadeira
A premissa de Squid Game é direta e impiedosa: 456 participantes competem em versões letais de brincadeiras tradicionais da Coreia do Sul. O prêmio? Uma fortuna capaz de quitar qualquer dívida. A regra principal? Quem perde não sai apenas do jogo — paga com a própria vida.
Mas o verdadeiro impacto não está apenas na violência gráfica, mas no que ela representa. Cada personagem carrega consigo uma história de fracasso, vergonha ou desespero financeiro. A brutalidade dos jogos mortais funciona como metáfora escancarada de um sistema que coloca pessoas vulneráveis umas contra as outras enquanto alguém, em algum lugar, assiste e se diverte com o que vê.
É por isso que a primeira temporada de Round 6 foi tão arrebatadora: o choque não vinha só do sangue, mas da sensação incômoda de que, em algum nível, aquela distopia parecia assustadoramente plausível.
Primeira temporada: que comecem os jogos
A primeira temporada é onde Squid Game atinge sua genialidade. Imprevisível e carregada de uma crítica social afiada, ela transforma jogos infantis em um espetáculo cruel que prende pela tensão e pelo desconforto. A estética vibrante, quase lúdica, contrasta com a brutalidade dos desafios, criando uma atmosfera perturbadora que nunca nos deixa completamente confortáveis.
A trilha sonora de Jung Jae Il reforça essa sensação, dando às cenas um tom quase teatral. Tudo ali é calculado: o ritmo, os silêncios, os choques. A temporada equilibra suspense, emoção e comentário social com precisão.
Gi Hun é um protagonista imperfeito — ingênuo, impulsivo, às vezes até irritante. Mas, mesmo cercado por atrocidades, ele nunca perde completamente sua humanidade. Já Sang Woo funciona como seu espelho distorcido: racional, estratégico e moralmente ambíguo. A dinâmica entre os dois sustenta boa parte da força dramática da narrativa.
Cada morte pesa. Cada decisão importa. Não é apenas violência pelo choque, é a sensação constante de que aquelas pessoas estão sendo esmagadas por um sistema que as colocou ali muito antes dos jogos começarem.
Era impossível assistir a um único episódio. O suspense era sufocante e os personagens tinham camadas reais. O final foi doloroso, mas coerente. Fechava um ciclo. Mas sejamos honestas: manter esse nível de impacto por três temporadas é um desafio gigantesco. O que resta é uma pergunta inevitável: como repetir o efeito do inesperado?
Segunda temporada: o retorno ao círculo vicioso
⚠️ >> Leia apenas se você já tiver visto a 1º temporada
A segunda temporada de Squid Game parte de uma premissa interessante: após vencer o jogo, Gi Hun decide abrir mão da sua vida nos Estados Unidos ao lado da filha para assumir uma missão arriscada: infiltrar-se novamente no sistema e tentar destruí-lo por dentro.
A ideia é boa, mas a execução…
⚠️ >> Alerta de spoiler!
A decisão de Gi Hun de retornar ao jogo levanta um incômodo inevitável. Depois de tudo o que viveu, seria esperado que ele agisse com mais estratégia e menos impulso. Em vez disso, ele parece repetir padrões: confia além do razoável (mesmo tendo todos os motivos para desconfiar de todos depois de tudo o que passou) e volta a se colocar na mesma engrenagem que quase o destruiu.
A tentativa dos jogadores de atacar o Front Man (Lee Byung-hun) reforça essa sensação. Enfrentar um sistema claramente estruturado, armado e organizado como se bastasse força de vontade parece mais ingênuo do que revolucionário. Para alguém que já testemunhou a dimensão do esquema por dentro, a falta de planejamento enfraquece o conflito.
Ritmo e desenvolvimento
Já conhecemos o fator gore, a estética colorida e os guardas mascarados. Embora o visual continue impecável e o alto valor da produção continue inegável, a narrativa começa a dar sinais de repetição.
O maior problema aqui é o ritmo. A construção demora a engrenar, e os primeiros episódios se arrastam mais do que deveriam. As cenas de votação — continuar ou encerrar o jogo — que teoricamente deveriam gerar tensão, são previsíveis e acabam tirando o espaço de tela de outras mais importantes. Sabemos que a maioria votará por continuar. O suposto livre-arbítrio é uma ilusão. Então por que alongar tanto?
Falta também maior desenvolvimento dos novos jogadores. Na primeira temporada, havia personagens que despertavam empatia ou repulsa genuína. Aqui, poucos conseguem gerar esse mesmo envolvimento. Alguém com a mesma presença estratégica que Sang Woo teve na primeira temporada como contraponto do protagonista seria mais uma adesão bem-vinda para melhorar a experiência da continuação.
Em muitos momentos, parece que o diretor Hwang Dong Hyuk tenta explicar o truque enquanto o executa. O elemento surpresa desaparece, e a adrenalina que nos fez maratonar a primeira temporada em 2021 já não tem o mesmo impacto.
E, para completar, a temporada termina em um grande cliffhanger. Para quem acompanhou em 2024, a espera deve ter sido frustrante. Talvez o maior privilégio de assistir às duas temporadas em sequência seja justamente evitar essa sensação de interrupção.
Terceira Temporada: a ganância não tem limites
A terceira temporada de Squid Game promete ser mais sombria e brutal — e cumpre. No entanto, em alguns momentos, parece se deixar levar pelo melodrama.
Os jogos são mais violentos, mais gráficos, mais extremos. Mas violência, sozinha, não sustenta uma narrativa. Onde a primeira temporada usava o choque como ferramenta para aprofundar personagens e crítica social, aqui há momentos em que a história parece existir apenas para sustentar o espetáculo da brutalidade.
Uma temporada, muitos spoilers
Não posso falar muito da temporada final (ou não) sem spoilers, por isso as tags sinalizadas a seguir, por sua própria conta em risco. 🙂
⚠️ >> Alerta de spoiler!
Um dos pontos centrais é a introdução de um novo e inesperado jogador: um bebê que nasce dentro do jogo. A decisão narrativa é chocante e profundamente desconfortável.
A ganância humana atinge um novo patamar quando vemos jogadores dispostos a continuar votando pela competição, mesmo diante da presença de uma criança recém-nascida. O desespero é tão grande que alguns estão até dispostos a condenar o pequeno à morte (inclusive o próprio pai) apenas pela chance de ganhar mais dinheiro.
A ideia tinha potencial para expandir o debate moral sobre até onde o ser humano pode ir pela sobrevivência ou ambição. Porém, acaba sendo utilizada mais como elemento de choque do que como ferramenta real de desenvolvimento dramático.
Ver o bebê se tornar o “único vencedor” simboliza, para mim, um jogo sem vencedores reais. Todos os personagens que aprendemos a amar (ou odiar) acabam mortos. Muitas eliminações passam quase sem impacto emocional, prejudicadas pela falta de desenvolvimento prévio. A morte de jogadores que tinham profundidade, como Jang Geum Ja (149), interpretada por Kang Ae Shim, e Cho Hyun Ju (120), vivida por Park Sung Hoon, realmente pesa.
O desfecho, com Gi Hun se sacrificando para garantir que o bebê sobreviva, é devastador. Mas também deixa uma sensação de vazio. Seu arco começa como uma jornada de redenção e termina sem que sua filha saiba quem ele se tornou. A luta para acabar com os jogos praticamente se dissolve, sem uma resolução. Já a busca de Hwang Jun Ho (Wi Ha Joon) pela ilha culmina em respostas frustrantemente silenciosas — o que reforça a sensação de que a história perdeu a força que tinha em seu início.
O que pode ser revelado sem prejudicar a experiência
O que dá para dizer abertamente sobre a trilogia de Round 6: a sensação que fica é a de que a história ultrapassou seu ponto natural de encerramento.
A crítica social ainda está ali, mas menos afiada. O impacto emocional ainda existe, mas menos consistente. A terceira temporada amplia o espetáculo, mas diminui o significado. Se a primeira temporada foi um soco no estômago, a terceira parece mais um eco prolongado desse impacto inicial.
Squid Game: um clássico que se estendeu demais?

Um dos grandes destaques de Squid Game (Round 6), sem dúvida, foi a atuação de Gong Yoo como o recrutador. O contraste entre o charme elegante e a frieza perturbadora do personagem é um dos elementos mais inquietantes da série. Ver aquele sorriso carismático sendo usado para conduzir pessoas ao abismo — e ainda zombar dos mais vulneráveis — revela o quanto a perversidade pode se esconder sob uma fachada sofisticada. Na terceira temporada, ele retorna ainda mais afiado, reforçando esse desconforto.
Nesse quesito, Lee Jung Jae e Lee Byung Hun continuam sendo pilares da série. Também merecem menção Kang Ae Shim, Park Sung Hoon, Yim Si Wan, Kang Ha Neul e Park Gyu Young como os nomes do elenco que se sobressaem por suas performances — mesmo que alguns personagens tenham moral questionável. Alguns, inclusive, ao invés de crescer, sofrem regressões narrativas. Aqui, independentemente das escolhas de roteiro, o mérito das performances é inegável.
Se há algo praticamente intocável é o aspecto técnico. A direção de arte segue vibrante e meticulosamente construída, transformando jogos infantis em cenários quase surreais de pesadelo. A identidade visual continua sendo uma das maiores forças da franquia.
Já a narrativa não consegue repetir o fator surpresa da primeira temporada. O desenvolvimento superficial de novos personagens e o excesso de tempo dedicado a tramas paralelas que não encontram resolução plena contribuem para uma sensação de desgaste, especialmente no desfecho. E, sim, os VIPs continuam sendo um dos pontos mais frágeis da construção dramática, com diálogos que pouco acrescentam à densidade da história.
Veredito: vale a pena voltar para o jogo?
Na primeira temporada, Gi Hun tinha em Sang Woo um contraponto estratégico e racional. Sem essa figura forte ao seu lado, o protagonista parece mais vulnerável e, em alguns momentos, excessivamente ingênuo — ainda preso às memórias do Player 001 e ao sistema que o manipula. A falta de um líder estrategista fez muita falta nas sequências.
Assim como aconteceu com Alice in Borderland, é difícil para Squid Game recriar a magia do ponto de partida quando o choque inicial já passou. Depois da surpresa, o que sustenta a série precisa ser profundidade — e nem sempre ela está presente com a mesma força.
⚠️ >> Alerta de spoiler!
A aparição final de Cate Blanchett como uma recrutadora americana, sugerindo uma possível expansão do universo abre portas, mas também deixa uma pergunta no ar: é realmente necessário continuar?
Round 6 tem tudo para ser eternamente lembrada por sua primeira temporada brilhante. As continuações, porém, carregam o peso das próprias expectativas — talvez como um lembrete de que nem toda história precisa virar franquia. O que começou como uma sátira social afiada termina mais próximo de um thriller de ação convencional.
Vale o seu tempo? Se você aprecia thrillers psicológicos, histórias que exploram o lado mais sombrio (e às vezes mais humano) das pessoas e quer saber como os jogos terminam, a primeira temporada é praticamente obrigatória. Mas entre no jogo consciente de que a rodada inicial é excepcional — e que as seguintes podem não alcançar o mesmo nível.
Squid Game talvez seja um lembrete de que nem toda história precisa se tornar franquia. E para você: a série manteve a força até o fim ou deveria ter encerrado os jogos antes? ˆ-ˆv