
Entrar no universo dos idols é mergulhar em um mundo de luzes, fama e uma conexão profunda entre fãs e artistas. Mas o que acontece quando o brilho do palco é ofuscado por uma acusação de crime? Idol I (아이돌아이) nos leva para os bastidores nada glamourosos da indústria do entretenimento: pressão, expectativas, carga excessiva de trabalho. No meio disso, está a linha tênue entre a relação idol e fandom: o apoio incondicional e os perigos do comportamento de um stalker — obsessão, julgamentos públicos e a perda da privacidade.
Em vez de romantizar esse mundo idol, o K-Drama propõe um olhar mais melancólico sobre o que significa ser amado por milhões e ainda assim se sentir profundamente sozinho. Exibida pela Netflix, a produção da emissora ENA e Genie TV convocou Sooyoung e Kim Jae Young para uma trama que desafia a percepção pública sobre moralidade e justiça.
Prepare-se para uma narrativa que equilibra o suspense jurídico com o acolhimento do apoio mútuo que ganha força no momento mais sombrio. Embarca comigo?
Ficha técnica de Idol I
Série: Idol I (아이돌아이)
Gênero: Thriller, Mistério, Romance
Número de Episódios: 12
Estreia: 22 de dezembro de 2025
Direção: Lee Gwang Young
Roteiro: Kim Da Rin
Elenco principal: Sooyoung (Maeng Se Na), Kim Jae Young (Do Ra Ik), Jeong Jae Kwang (Kwak Byung Gyun), Choi Hee Jin (Hong Hye Joo), Kim Hyun-Jin (Park Chung Jae) e a lista completa
Idol I coloca na balança dois universos opostos: a seriedade do tribunal com o brilho dos palcos de K-Pop e a vivacidade de um fandom. A responsável por medir o peso de cada um é Maeng Se Na (Sooyoung), uma advogada criminal renomada, famosa por sua taxa de sucesso de 100% e pelo apelido nada carinhoso de “advogada dos vilões”. Por trás da postura firme na frente do juíz, ela guarda um segredo: é fã dedicada de Do Ra Ik (Kim Jae Young) há mais de uma década, o idol mais popular do Gold Boys.
Quando ele se torna o principal suspeito pela morte de um colega da banda, os dois mundos colidem. A partir desse momento, Se Na se vê defendendo não apenas um cliente, mas alguém que sempre admirou de longe.
Uma história onde o palco encontra o tribunal
Desde o primeiro episódio, Idol I estabelece um contraste interessante entre uma fantasia típica de fã e a dureza da realidade.
“I cannot help but keep falling into foolish fantasies, of accidentally sharing a table at a restaurant with you, or bumping into you in an empty, late-night theater”.
O monólogo de abertura de Maeng Se Na, sobre sonhos bobos de encontros casuais com seu idol favorito, ganha um peso quase irônico quando esse momento tão esperado finalmente acontece. Em vez de dividir uma mesa em um restaurante romântico ou esbarrar em um cinema vazio, o destino cruza seus caminhos na sala de visitas de uma delegacia.
Para o coração de uma fangirl, a identificação é inevitável
Para quem coleciona photocards e já sentiu na pele o desespero de ver a mensagem “este assento está indisponível” durante a compra de ingressos, Idol I acerta em cheio. A identificação com Maeng Se Na em seu modo fangirl é imediata e quase automática.
Logo nos primeiros episódios, acompanhamos dilemas que toda fã conhece bem: a promessa de comprar “só mais um item”, quebrada diante de um novo merch impossível de ignorar, o amor silencioso por alguém inalcançável, a tentativa constante de equilibrar paixão e vida real. Começar esse K-Drama no mesmo dia em que recebi meu lightstick do Stray Kids para o Rock in Rio trouxe, para mim, uma camada extra de conexão emocional.
O que mais impressiona é o realismo em alguns detalhes. A série não romantiza o fandom, mas mostra o investimento emocional, a devoção discreta e o equilíbrio de amar sem ultrapassar limites. Como alguém que conhece esse universo de perto, eu me senti representada mais de uma vez.
O roteiro é brilhante ao usar o monólogo sobre “fantasias tolas” como ponto de partida para colocar Se Na frente de seu bias: não como fã, mas como advogada de defesa em um caso de homicídio. Essa quebra de expectativa dá o tom da série: a desconstrução da imagem idealizada de um idol para revelar o ser humano por trás dela.
Idols são humanos: o óbvio que tende a ser ignorado
Um dos maiores méritos de Idol I está na forma sensível com que aborda a pressão da fama. Ra Ik é apresentado como um personagem quebrado, que esconde sua exaustão atrás de um sorriso ensaiado. O “amor” dos fãs, quando passa dos limites — stalkers, invasões de privacidade, vigilância constante — deixa de ser apoio e se torna um fardo.
Sua evolução ao longo dos episódios é visível. No início, sua personalidade é agressiva, defensiva e visivelmente desgastada. Há sinais de depressão e isolamento que tornam sua convivência difícil. Aos poucos, ao encontrar em Se Na, alguém em quem pode confiar sem máscaras, ele volta a sorrir. E isso é profundamente gratificante de acompanhar.
Quando Se Na passa a enxergar Ra Ik além do seu bias e começa a vê-lo como um ser humano ferido e pressionado por expectativas, a narrativa amadurece. O caso de assassinato deixa de ser apenas um mistério policial e se transforma em um catalisador para discussões mais amplas: culpa, saúde mental e a crueldade dos julgamentos coletivos.
A série também expõe a volatilidade da opinião pública: a mesma multidão que idolatra hoje pode destruir amanhã. A trama entrelaça vários fios narrativos: o assassinato de um membro da banda e a busca pela verdade, os preconceitos enfrentados por quem tem uma imagem pública, o romance que cresce de forma discreta, porém constante, e o dilema moral do promotor entre o dever e a consciência.
Entre o fervor do fandom, um crime e o acolhimento
Embora envolva um julgamento, Idol I passa longe de ser um K-Drama jurídico tradicional. Poucas cenas acontecem diante de um juiz, grande parte da investigação se desenvolve em delegacias, escritórios da promotoria e, sobretudo, em espaços íntimos.
Entre eles, a casa de Maeng Se Na ganha protagonismo. Banhada por luz natural, texturas de madeira, um pequeno jardim e uma atmosfera quase nostálgica, o ambiente transmite aconchego e segurança. Lembra um verão tranquilo, daqueles que parecem suspensos no tempo. Mais do que um cenário, a casa se torna um refúgio emocional — tanto para Se Na quanto para Ra Ik — reforçando o tom gentil e humano da série.
⚠️ >> Alerta de spoiler!
Que linda a cena na “varanda” da casa da Maeng Se Na, os dois sentados conversando como se fosse uma cena típica de um verão japonês. Tudo ali transmite conforto: o silêncio, a luz de um sol brilhante que iluminou todo o ambiente, a sensação de familiaridade. Aliás, a casa dela é tão linda e aconchegante. Queria morar em um lugar assim. *-*
É ali que vemos Ra Ik começar a baixar a guarda e a prestar atenção nela com um outro olhar, como alguém que encontrou o porto seguro que precisava para seguir em frente. A conversa sob a árvore que “treme” quando alguém mente, é um dos momentos mais simbólicos: um ensinamento passado do pai para a filha, e dela para Ra Ik.
Outro destaque emocional é o concerto particular ao piano, que mistura presente e passado, revelando memórias dos dois ainda estudantes. A leveza do momento contrasta com o peso da descoberta da coleção secreta de fã de Se Na, quando Ra Ik se sente exposto e vulnerável.
Quando o vínculo deixa de ser fantasia
O romance se desenvolve com cuidado, de forma silenciosa e quase tímida, respeitando o tempo da narrativa. O que começa como desconfiança — e até certo atrito — se transforma, pouco a pouco, em apoio mútuo e acolhimento. Para os dois, o sentimento nasce nos detalhes, nos silêncios compartilhados e na sensação de segurança que um oferece ao outro.
Sooyoung, como Maeng Se Na, entrega uma personagem que transita com naturalidade entre a rigidez profissional e a vulnerabilidade emocional. Se Na é contida, observadora e profundamente humana — especialmente nos momentos em que seu olhar denuncia emoções (ou lágrimas) que ela insiste em esconder.
Kim Jae Young, no papel de Do Ra Ik, constrói um personagem que poderia facilmente cair no estereótipo do idol atormentado, mas evita esse caminho ao apostar em gestos mínimos. Seu cansaço emocional, a agressividade defensiva dos primeiros episódios e, mais tarde, o sorriso que reaparece aos poucos, criam um arco convincente e sensível.
Mais do que um romance convencional, a relação entre Se Na e Ra Ik funciona como um espaço de cura. Para ele, acostumado a viver observado, julgado e pressionado, ela se torna a primeira pessoa a enxergá-lo além dos palcos, sem precisar representar um papel ou seguir expectativas. Para ela, que sempre amou de longe, esse vínculo exige maturidade: abandonar a fantasia do idol perfeito para enxergar o homem real, frágil e imperfeito.
Ainda que faça sentido questionar se a relação deveria ter permanecido estritamente profissional, Idol I constrói esses laços com base no reconhecimento mútuo de dor, solidão e necessidade de apoio. Em vez de “salvarem” um ao outro, eles aprendem a caminhar juntos.
Personagens que ampliam os dilemas morais
Além do casal protagonista, Idol I se fortalece graças a personagens secundários que ajudam a expandir os dilemas morais da trama para além do romance e do caso central.
Jeong Jae Kwang, no papel do promotor Kwak Byung Gyun, entrega uma atuação contida e progressiva. Inicialmente, seu personagem representa o lado mais rígido do sistema: alguém que escolhe um culpado, mais pela opinião pública e pela pressão do pai do que por evidências concretas. Sem grandes discursos, o promotor passa a questionar suas próprias convicções e, aos poucos, desloca o foco do “culpado conveniente” para a busca genuína pela verdade.
Hong Hye Joo (Choi Hee Jin), por sua vez, ocupa um espaço moralmente desconfortável. Seu jeito de “amar” foge completamente do ideal romântico: é possessivo, distorcido e dominado por carência e ressentimento. Sua personagem nos convida a refletir sobre até que ponto a dor explica comportamentos, sem jamais justificá-los.
Por fim, Kim Hyun-Jin, como Park Chung Jae, traz uma certa leveza. Sua relação com Maeng Se Na é construída como uma troca constante de apoio. Um laço de família que começa com dependência emocional, mas evolui para o amadurecimento. Após se apoiar profundamente em Se Na, ele encontra forças para trilhar seu próprio caminho. Afinal, crescer também é aprender a caminhar sozinho.
Esse trio de coadjuvantes amplia o alcance emocional de Idol I, mostrando que a história não é apenas sobre um idol acusado ou uma fã apaixonada, mas sobre escolhas, responsabilidade e as diferentes formas — saudáveis ou não — de se conectar com o outro.
Um final que retorna à leveza da estreia

Idol I não é um K-Drama extravagante em termos de estrutura ou produção, mas tem algo raro: aconchego. Seu mérito está em outro lugar: na sensibilidade com que trata temas como fama, relação entre idols e fandom, solidão mesmo sendo amado por todos e cura emocional. Após toda a densidade do crime e a pressão para condenar o culpado, o final da série retoma o tom do início, fechando o ciclo das “fantasias tolas” que agora se tornam um futuro compartilhado.
⚠️ >> Alerta de spoiler!
A resolução do caso de assassinato de Kang Woo Seong (An Woo-Yeon) confirmou minhas suspeitas sobre o verdadeiro culpado, só não imaginava da forma como aconteceu. 🤔
No final, teve a reabertura do caso do pai de Se Na. Depois de provar a inocência de Ra Ik, ela finalmente cria coragem para enfrentar seu passado. Ver ela limpando o nome de sua família trouxe o fechamento que a personagem merecia, mostrando que justiça, para ela, nunca foi apenas uma profissão, mas uma forma de reparação pessoal. O episódio também resgata a narrativa da abertura. O sonho de um encontro improvável, que começou da pior maneira possível se tornou um presente construído com cuidado, respeito e escolhas conscientes.
A volta do Gold Boys aos palcos, com as fãs respeitando o espaço deles, foi um “sonho de consumo” para qualquer fã de K-Pop. Ver a organização impecável e o respeito à privacidade dos idols no último episódio me fez desejar que a vida real fosse exatamente assim. Um ideal? Talvez. Mas um ideal bonito de se contemplar. E o show com todos sentados no gramado? Será que todos os shows de K-Pop na Coreia do Sul são como o K-Drama mostrou? 🤩
Veredito: vale a pena acompanhar?
Talvez não seja uma obra que ficará marcada como um clássico absoluto, mas Idol I é daquelas séries coreanas que permanecem no coração. Um lembrete gentil de que nosso valor não está em troféus, charts ou manchetes e de que, às vezes, tudo o que precisamos é de alguém que nos veja como realmente somos.
É um K-Drama acolhedor, levemente melancólico e ideal para assistir quando tudo parece um pouco pesado demais — especialmente se você se identifica com o universo dos idols (e já amou ou ama alguém de longe).
Se você curte histórias que exploram a conexão emocional entre fãs e idols com uma pitada de viagem no tempo, não deixe de ver Lovely Runner. ˆ-ˆv