
Você já sentiu que o tempo é o maior aliado e, ao mesmo tempo, o pior inimigo de um grande amor? Em Surely Tomorrow (경도를 기다리며), mergulhamos em uma jornada de amadurecimento onde os protagonistas parecem presos em um loop de reencontros, términos e sentimentos que insistem em permanecer. Com uma proposta realista e pautada por break-ups, o K-Drama acompanha um casal que se ama, se separa e volta a se cruzar em diferentes fases da vida. A história dos dois é melancólica, marcada por silêncios, memórias e escolhas que nunca parecem definitivas.
A série da JTBC, que estreou no dia 6 de dezembro de 2025, equilibra a leveza do cotidiano com o peso emocional de quem ainda não esqueceu seu primeiro amor. Com um ritmo deliberadamente lento, a história aposta mais em atmosfera para apresentar as idas e vindas do amor entre Kyeong-Do e Ji-Woo. Embarca comigo?
Ficha técnica de Surely Tomorrow
Série: Surely Tomorrow (경도를 기다리며)
Gênero: Drama e Romance
Número de Episódios: 12
Estreia: 6 de dezembro de 2025
Direção: Im Hyun-Wook (King the Land)
Roteiro: Yoo Young-A (Thirty Nine)
Elenco principal: Park Seo-Jun (Lee Kyeong-Do), Won Ji-An (Seo Ji-Woo), Lee Joo-Young (Park Se-Young), Kang Ki-Doong (Cha Woo-Sik), Jo Min-Kook (Lee Jeong-Min) e a lista completa
Lee Kyeong-Do (Park Seo-Jun) é o ace da equipe de reportagem do departamento de entretenimento. Enquanto o lado profissional vai bem, o pessoal ainda se prende às lembranças do seu primeiro amor. Seo Ji-Woo (Won Ji-An) reaparece anos depois de dois términos mal resolvidos, agora divorciada e envolvida em um escândalo que cruza diretamente o caminho profissional dele. A partir desse reencontro, o casal revisita o passado, as lembranças, os ressentimentos e tudo aquilo que nunca foi devidamente resolvido.
O eterno retorno de Lee Kyeong-Do e Seo Ji-Woo
Surely Tomorrow constrói sua narrativa a partir de encontros, desencontros e términos que nunca parecem definitivos. Aos 20 anos, Kyeong-Do e Ji-Woo se conhecem enquanto ela visitava a universidade dele e, juntos, acabam se envolvendo com o clube de teatro. Os dois se apaixonam à primeira vista, mas logo vem o primeiro término. Aos 28, eles se reencontram, reatam a relação e terminam novamente. Aos trinta e poucos, um escândalo envolvendo o marido de Ji-Woo força os caminhos dos dois a se cruzarem mais uma vez.
O primeiro episódio estabelece um tom bem neutro, sem grandes pistas sobre os motivos por trás das separações. Também deixa claro que nem todas as feridas estão realmente fechadas, mas sempre escolhe abri-las em momentos inoportunos. Para quem já viu muitos K-Dramas, a estrutura é familiar: amor na juventude, afastamento abrupto e reencontro anos depois.
Entre os flashbacks das memórias compartilhadas entre Kyeong-Do e Ji-Woo, a cena da fotografia na praia (que inclusive foi a escolha de capa para o post) dá textura emocional à história e passa uma sensação de nostalgia que lembra Twenty Five Twenty One — explorando a juventude como um espaço de promessas e perdas.
Neste mesmo episódio, Surely Tomorrow insere mais um elemento que reforça a ideia de que algo ficou suspenso no tempo, esperando para ser resolvido: o relógio de bolso com a moeda que uniu os dois como um símbolo bonito do tempo compartilhado pelo casal.
Efeito Godot: a espera como narrativa central
Com a frase “He won’t come this evening but surely tomorrow” em referências constantes à Waiting for Godot, a série já sinaliza desde cedo o tipo de história que pretende contar. A referência direta à Waiting for Godot, tragicomédia escrita por Samuel Beckett e publicada em 1952, não é apenas estética: é conceitual. Na peça, os personagens aguardam indefinidamente por alguém que nunca chega — e essa sensação de espera predomina durante todo o K-Drama.
Mesmo para quem não conhece a obra original, o “efeito Godot” se traduz visualmente na forma como a direção trabalha os quase encontros. Há uma insistência em mostrar o quanto os protagonistas estiveram próximos ao longo dos anos, sem nunca realmente se encontrarem no momento certo. É um recurso que pode parecer frustrante (ou não, depende de como cada um enxerga o casal), mas que também sustenta a melancolia central da série.
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No episódio 9, Waiting for Godot, retorna como elo entre os protagonistas. Vemos como Kyeong-Do e Ji-Woo frequentaram a mesma peça de teatro anualmente durante o tempo em que estiveram separados, mas o destino nunca os deixou esbarrar um no outro. A trilha sonora, que em certos momentos me lembra a clássica “You Raise Me Up” do anime Romeo x Juliet, e embalando o ponto de vista de cada um ao longo dos anos, ajuda a elevar essa melancolia.
Entre reencontros e dinâmicas complexas
Embora Lee Kyeong-Do e Seo Ji-Woo apresentem uma química natural e interações maduras, a dinâmica do casal não é simples. No início, a personalidade de Ji-Woo pode incomodar: sua postura muitas vezes fria, ríspida ou autocentrada contrasta com a personalidade extremamente doce e quase altruísta de Kyeong-Do.
Essa assimetria torna o relacionamento mais realista, mas também mais difícil de abraçar emocionalmente. A série parece consciente disso e não tenta romantizar excessivamente comportamentos problemáticos. Com o passar dos episódios, ela tenta justificar algumas decisões do passado na tentativa de esperar certa empatia com escolhas nem sempre saudáveis.
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Apesar do tom mais dramático, Surely Tomorrow também sabe quando aliviar a carga emocional. O episódio 5 é um bom exemplo disso. A inesperada “invasão” de Kyeong-Do à casa de Ji-Woo rende algumas das cenas mais divertidas da série, como o preparo do ramyeon com direito a ASMR e a sequência do patch para as costas, que brinca com a tensão romântica sem cruzar a linha. Pequenos diálogos espirituosos, como a comparação com Park Bo Gum, ajudam a quebrar a rigidez emocional e tornam os personagens mais humanos.
A cena final no parque de diversões, embalada por “How Long Will I Love You?” (na versão original do The Waterboys, lançada em 1990), reforça esse equilíbrio delicado entre humor e nostalgia.
Atuações que sustentam a espera
Se há um elemento que compensa o ritmo de Surely Tomorrow, mesmo que de forma parcial, são as atuações. Em um slow-burn de conflitos majoritariamente internos, a história depende quase inteiramente da capacidade do elenco de transmitir emoções contidas e, nesse aspecto, a série entrega mais do que promete.
Park Seo-Jun é quem mais me marcou. Lee Kyeong-Do é construído a partir de pequenos gestos, silêncios prolongados e uma melancolia constante que nunca soa artificial. As cenas de choro são especialmente marcantes: não há exagero, apenas uma dor acumulada que transborda quando o personagem já não consegue mais conter. É um trabalho emocionalmente honesto, que evidencia o quanto o ator se envolveu com o papel.
A química com Won Ji-An é natural, especialmente quando o relacionamento atinge um estágio mais maduro, especialmente em cenas dentro de casa. Ainda que a dinâmica do casal seja problemática em vários níveis, os atores conseguem torná-la crível, o que nem sempre pode ser confortável para quem acompanha de fora. O núcleo de amizade — também conhecido como Chaos Family — contribui para humanizar a narrativa, assim como a relação de Kyeong-Do com seus pais, que adiciona calor emocional à história.
Vale destacar ainda a representação do trabalho jornalístico. Como jornalista, achei a representação da profissão convincente e menos caricata do que em outros K-Dramas, principalmente na reta final quando as equipes se unem para uma reportagem investigativa. E, para mim, Park Seo-Jun convence com naturalidade nesse papel.
Um final apressado, uma história paciente

Conforme nos aproximamos da reta final, Surely Tomorrow mantém sua essência introspectiva, mas começa a acelerar o passo para amarrar os diversos nós emocionais que criou. O drama, que até então se cozinhava em fogo baixo, traz picos de tensão e alívio que testam o coração do espectador.
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A cena de acampamento no episódio 10 traz uma leveza quase inesperada e me lembrou muito a sensação contemplativa do anime Futari Solo Camp, com sua valorização do silêncio e da conexão simples com a natureza.
O episódio também acerta ao quebrar um clichê recorrente: quando o segredo sobre a origem de Ji-Woo (fruto de um affair) ameaça virar um escândalo, ela mesma toma as rédeas, concede uma entrevista exclusiva e explode a bomba antes que os outros o façam por ela. É um momento de força da personagem, ainda que os capítulos seguintes indiquem que novos conflitos são inevitáveis — inclusive, um deles leva a uma nova separação.
Emoções em diferentes tonalidades
A série também utiliza muito bem as locações externas para ditar o clima. Enquanto a Coreia traz tons mais sóbrios e cinzentos para o reencontro, a mudança de cenário expande os horizontes da narrativa.
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Vemos Kyeong-Do se estabelecendo em Málaga. A paleta de cores solar da Espanha é cheia de vida e cores claras, mas o roteiro brinca com nossos nervos ao mostrar Ji-Woo viajando para lá a trabalho e os dois passando um pelo outro sem se verem. É aquele desencontro clássico que reforça o tema da peça Waiting for Godot: o tempo passa, mas a espera continua.
Entre uma despedida e um recomeço
No entanto, nem tudo são flores ou belas paisagens. O encerramento traz um peso dramático que talvez nem todos estivessem preparados para carregar, especialmente pela rapidez com que algumas resoluções são apresentadas.
⚠️ >> Alerta de spoiler!
O episódio final é um turbilhão: problemas são resolvidos, verdades são reveladas e “vilões” são punidos. O ponto mais marcante, porém, vem de forma inesperada: a morte repentina de Cha Woo-Sik (Kang Ki-Doong) no palco foi um golpe duro e, honestamente, me perguntei se era necessária. A narração de seus últimos momentos é de partir o coração. A imagem dos quatro amigos — Jeong-Min, Se-Young, Ji-Woo e Kyeong-Do — sentados no banco do funeral, deixando o espaço vazio onde Woo-Sik deveria estar, é visualmente simbólica.
O casal também decide colocar um ponto final na espera. Dessa vez, é Ji-Woo que segura a mala de Kyeong-Do e pede que ele fique. A cena pós-créditos é curiosa e foge do padrão: sentados em um parque, eles discutem sobre estarem saudáveis o suficiente para começar uma família. Prático e maduro, bem ao estilo deles. Depois de tantas idas e vindas, o amor aqui não se resolve com promessas, e sim com decisões simples.
Vale a pena a espera?
Surely Tomorrow é um K-Drama silencioso, contemplativo e imperfeito. Não é uma história que empolga constantemente, mas cria uma atmosfera própria e deixa ecos emocionais. O brilho aqui está nas atuações: Park Seo-Jun entrega um repórter convincente, cativante e humano. E embora a dinâmica do casal possa incomodar — especialmente pela forma como Ji-Woo trata o dócil Kyeong-Do no início — a química entre eles cresce de forma natural.
Se você procura uma história que se permite ser lenta e um romance realista que mostra que o amor nem sempre é suficiente para manter duas pessoas juntas, se não for o momento certo, pode valer a pena dar uma chance. Além das atuações, a energia da Chaos Family (o núcleo de amigos), o acolhimento dos pais de Kyeong-Do e as cenas coloridas no exterior enriquecem a experiência de quem não se importa com a espera.
Se você já terminou de assistir, me conta: também achou a protagonista difícil de defender no começo ou conseguiu entender o lado dela? ˆ-ˆv