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K-Pop e AI: combinação que veio para ficar ou boom passageiro? 

Aos poucos, o metaverso está expandindo sua influência, assim como o uso de Inteligência Artificial e outras tecnologias. Se antes a combinação K-pop e AI parecia surreal, agora os novos grupos virtuais mostram que talvez não seja algo tão fora do comum. Os primeiros sinais dessa collab inesperada vieram em 2018, com a formação do K/DA pela Riot Games.

Dois anos depois, foi a vez do primeiro grupo híbrido — misturando idols do mundo real com avatares virtuais. Estou falando de aespa. Desde então, pelo menos um novo grupo de K-pop com elementos de AI e características futurísticas se forma todo ano. Por curiosidade, resolvi me aprofundar no tema e vou compartilhar com você o que eu encontrei. Vem comigo?

Como está o cenário atual de K-Pop e AI?

Em 2019, quando vi o anime Carole & Tuesday na Netflix, fiquei imaginando o quanto o contexto da trama era surreal para a nossa realidade. Você conhece a história? Em resumo, as duas protagonistas vivem em um mundo dominado por músicas criadas a partir da Inteligência Artificial. 

Esse, com certeza, não é o cenário que vivemos, nem no K-Pop ou em qualquer outro gênero musical. Mas quando comecei a ver mais e mais grupos se formando na Coreia do Sul com o apoio da tecnologia, o anime logo veio à minha mente. Em 2018, apenas o K/DA misturava recursos do mundo real com o virtual. Depois veio aespa, também seguindo uma linha híbrida, tendo a AI como elemento de apoio.

E a Hatsune Miku de Vocaloid? De software de síntese vocal para produção de música a games, mangá, animações e uma verdadeira febre no Japão, a personagem foi criada em 2007 com a intenção de se tornar uma diva na cena musical. A cantora futurística ganhou até holograma, com direito a shows lotados e plateia animada. 

Por falar em idol virtual, dizem que o pioneiro na Coreia do Sul foi Adam, criado em 1998 pela Adamsoft. Mesmo ano, aliás, da banda virtual inglesa The Gorillaz com seu estilo mais cartoon. Mas vamos voltar ao K-pop!

Número de grupos virtuais aumenta

Em 2021, veio o primeiro grupo formado 100% por membros virtuais, ETERN!TY. No ano seguinte, foi a vez de SUPERKIND, que segue uma trilha similar ao de aespa, só que os integrantes virtuais são mais ativos do que os avatares de Ningning, Karina, Winter e Giselle. 

Somente neste ano, já temos três novos grupos: MAVE (100% virtual, exceto pelas vozes que seguem sem confirmação sobre sua origem), PLAVE (100% virtual ou não, sem informações oficiais sobre quem está por trás das vozes, e estilo anime) e FE:VERSE (membros virtuais e vozes reais). O último, aliás, acabou de fazer sua estreia.

Quais grupos de K-Pop usam a tecnologia de AI?

No tópico anterior, eu já dei alguns spoilers sobre os grupos de K-pop que usam a tecnologia da Inteligência Artificial. Agora, eu vou detalhar um pouco mais para que você possa conhecê-los melhor — passando pela estreia de cada um, quem são os membros, o que é real e o que é virtual, além das músicas lançadas. 

Sei que o tema divide opiniões. Não quero defender, nem ficar contra a combinação K-pop e AI, apenas compartilhar o que encontrei em minhas pesquisas para que você conheça e decida apoiar ou não. Além disso, não posso negar que não fiquei curiosa após ver mais e mais grupos se formarem. Então, vamos lá!

FE:VERSE

FE:VERSE é o mais novo grupo virtual na área, tanto que fez seu debut um dia antes deste post ser publicado, em 9 de maio de 2023. Assim como ENHYPEN ganhou vida com o I-Land, FE:VERSE foi formado a partir do reality GIRL’S RE:VERSE, que chegou ao final em março deste ano, com cinco membros em seu line-up. Cada integrante tem um avatar virtual (estilo anime), mas as vozes pertencem a idols do mundo real: 

AvatarIdol
MuneoKwon Eun Bi (no IZ*ONE até 2021, agora solista)
SeoritaeHayoung (Apink)
KeuangLuda (WJSN)
RienHeeJin (no LOONA até o início de 2023)
KimserenaSoobin (WJSN)

O nome FE:VERSE vem de uma abreviação das palavras “fever”, “ever” e “verse”, além de fazer referência a GIRL’S RE:VERSE. Juntas, elas representam “paixão, eterno e universo”. 

Diferente de I-LAND e dos realities tradicionais, GIRL’S RE:VERSE contou com o apoio da tecnologia de Realidade Virtual (VR), que transportou as meninas para um mundo virtual. No início, nomes, rostos e identidades no mundo real foram mantidos em segredo, deixando os holofotes para o avatar e as vozes por trás de cada uma. O debut do FE:VERSE veio pela Kakao Entertainment, com o miniálbum CHO, com a titletrack que traz o mesmo nome (incluindo uma versão instrumental), além de I Promise e Time Takes me to Love.

PLAVE

Descobri o grupo PLAVE meio que por acaso, na minha lista de vídeos relacionados no YouTube, depois de acompanhar o SUPERKIND. Assim como FE:VERSE, PLAVE também é formado por membros virtuais com traços que lembram os de animes (e dos manhwas, os webtoons coreanos). 

Porém, não encontrei informações sobre a origem das vozes. O site asia pacific arts é o único a afirmar que há pessoas reais por trás da linha vocal e das coreografias. A estreia do boy group foi no dia 12 de março de 2023, com o álbum Asterum. Seu line-up também conta com cinco integrantes: 

  • Bamby: dançarino, vocalista
  • Eunho:  dançarino, vocalista
  • Hamin: líder, vocalista
  • Noah: rapper, vocalista
  • Yejun: rapper, dançarino, maknae

O nome PLAVE é uma combinação das palavras “play” e “rêve” (que significa “dream” em francês). Juntas, passam a mensagem de criar  um mundo para conquistar seus sonhos. O debut do PLAVE veio pela VLAST, com o single Wait For You. Enquanto escrevo este post, o MV já contabiliza 3 milhões de visualizações. No Spotify, são mais de 200 mil ouvintes mensais. E Wait For You tocou mais de 1,3 milhões de vezes no streaming.

Visual de webtoon

Os cinco idols que saíram direto dos quadrinhos compõem suas próprias músicas, além de cantar e dançar. E, assim como aespa, têm o seu próprio mundo virtual: Kaelum.

Antes da estreia em março, o grupo começou a interagir com fãs através de seu canal oficial no YouTube, com covers, lives e vlogs. Eles têm relay dance, participação no Show! Music Core e até dance practice. No EP, você pode ouvir a titletrack Wait For You e Pixel World, ambas com supervisão do produtor da HYBE Jang Yi-jeong (mais conhecido como EL CAPITXN), que já trabalhou com BTS, PSY e IU. 

MAVE

Aqui está mais um grupo que descobri bem por acaso. Geralmente, eu fico de olho nos lançamentos que estão por vir, mas MAVE não chamou minha atenção no início. Cheguei até elas enquanto navegava pelos vídeos do YouTube. MAVE fez sua estreia no dia 25 de janeiro de 2023, com o EP Pandora’s Box. O grupo é formado por quatro membros virtuais, mas há rumores de que existem pessoas por trás — que querem ficar no anonimato — dando voz e corpo à coreografia, além das expressões faciais. Seu line-up traz:

  • Marty: rapper de apoio, dançarina de apoio e maknae
  • Siu: líder, vocalista principal
  • Tyra: rapper principal, dançarina principal
  • Zena: vocalista líder

O nome MAVE significa “make a new wave”, isto é, vem da intenção de promover uma nova onda na indústria do K-pop. Seus fãs recebem o nome de MAZE. Já o debut do grupo ficou por conta da Metaverse Entertainment, subsidiária da Kakao Entertainment em parceria com a Netmarble (empresa de games). O MV do single Pandora já tem 22 milhões de visualizações, enquanto a versão extendida contabiliza mais de 3 milhões e a participação no Show! Music Core, com mais 2 milhões.

Impacto no K-pop

Recentemente, o grupo liberou uma performance especial para Wonderland — parte do EP Pandora’s Box com a titletrack Pandora. Na combinação mais pura de K-pop e AI da lista que eu trago aqui, MAVE parece estar movimentando a indústria do entretenimento. 

Afinal, 22 milhões de views no YouTube para um grupo virtual que recém estreou é um número bem expressivo. No Spotify, são quase 2 milhões de ouvintes mensais, sendo que Pandora já tocou mais de 29 milhões de vezes por lá. Sem contar que o visual ficou bem realista, não acha?

Vale destacar que a Metaverse Entertainment é focada em tecnologia para a gestão de idols virtuais e SFX (efeitos especiais ou sonoros). De acordo com a Metaverse, MAVE é um projeto em andamento com o objetivo de explorar novas oportunidades de negócios e encontrar caminhos para driblar os desafios tecnológicos.

SUPERKIND

SUPERKIND é um grupo curioso que, originalmente, fez sua estreia com cinco membros, mas hoje conta com sete integrantes. Dois deles são virtuais, enquanto o restante é formado por idols reais. O debut veio no dia 20 de junho de 2022 com o single Watch Out. Mais recentemente, o grupo completo lançou Moody — que está no MV acima. 

Mas por que acho o grupo curioso? Primeiro, porque parece que os membros reais interagem mais com os virtuais do que vejo acontecer com aespa. Já que esse foi o caminho escolhido, misturar K-pop e AI, então é assim que deve ser, não é? Ao menos, na minha visão. O MV de Moody também me deixou intrigada. Outro ponto interessante é que o grupo chamava YOURS, mas passou por um processo de rebranding e se tornou o SUPERKIND (antes da estreia). Por fim, uma das adições é um membro virtual. O line-up final ficou assim:

  • Daemon: líder e PRID leader, dançarino, rapper, vocalista de apoio (PRID-E)
  • Eugene: rapper, vocalista (PRID-R)
  • Geon: vocalista (PRID-M)
  • JDV: dançarino principal, vocalista, maknae (PRID-R)
  • Saejin: vocalista principal e NUKE leader (NUKE-)
  • Seung: rapper (NUKE)
  • SiO: vocalista (PRID-M)

O debut oficial do grupo veio com a Deep Studio, embora as primeiras movimentações dos membros como YOURS tenha começado ainda em 2021. Inclusive, foi quando o primeiro integrante foi apresentado: o idol virtual Saejin. Depois viram Daemon, Eugene, Geon e SiO (todos do mundo real). Logo depois da estreia em junho de 2022, JDV se juntou ao SUPERKIND e no final do ano foi a vez de Seung (mais um idol virtual). O lançamento do single Moody, em março deste ano, contou com a participação dos sete membros.

Storyline virtual

SUPERKIND também usa algumas referências para destacar o universo virtual do real e criar sua própria storyline. “NUKE” é para os membros do mundo virtual, enquanto “PRID” vale para os integrantes do mundo real. A colaboração entre os dois mundos tem o objetivo de encontrar o misterioso “S”. E os fãs recebem o nome de “PLAYERS”. 

Você também pode ver algumas letras acompanhando o status “NUKE” ou “PRID”, que seguem a storyline do SUPERKIND. M é para Moderado, R para Radical e E para Extremo. Pelo volume de views no YouTube e ouvintes no Spotify, SUPERKIND parece ser o grupo menos popular da lista. 

ETERN!TY

Diferente de SUPERKIND, que me deixou curiosa para acompanhar a storyline do grupo, ETERN!TY provocou o completo oposto. Tanto que depois de ver o MV para I’m Real, eu me afastei e não soube mais notícias. Voltei agora apenas para falar um pouco sobre elas neste post, afinal o grupo traz a combinação K-pop e AI, que é o tema de hoje. Dei play no vídeo mais uma vez, mas 20 segundos depois não consegui mais ouvir. O que você achou? @.@” 

ETERN!TY fez seu debut no dia 22 de março de 2021, pela Pulse9, com o EP I’m Real. Não sei se foi uma boa escolha. É um tanto excêntrico, em todos os sentidos. FE:VERSE e PLAVE têm os traços de quadrinhos/personagens de games (かわいい ˆ-ˆv). MAVE parece bem realista, mas é possível notar uma ou outra característica virtual. SUPERKIND tem apenas dois idols virtuais, então a maioria é real e as interações são legais de acompanhar. 

Inteligência Artificial ao extremo

No caso de ETERN!TY, o grupo tem 11 membros virtuais amparadas pela tecnologia de Inteligência Artificial Deep-Real, similar ao Deep Fake. A escolha das integrantes passou por uma votação online. E cada uma ganhou personalidade própria com base em um banco de dados dos últimos 20 anos na indústria do K-pop. O line-up:

  • Chorong
  • Dain
  • Hyejin: rapper líder
  • Jiwoo
  • Minji: rapper principal, dançarina de apoio
  • Sarang
  • SeoA: dançarina principal, centro
  • Sujin: vocalista de apoio, visual
  • Yejin: produtora
  • Yeoreum: líder, vocalista principal
  • Zae-In: vocalista líder

Além de I’m Real, o primeiro EP traz No Filter. Em 2022, o grupo lançou os singles Paradise, DTDTGMGN e Snow Holiday 3:50pm. Se você comparar I’m Real com os últimos vídeos, vai perceber que elas ficaram um pouco mais realistas, mas o apelo fica para o gosto de cada um. Apesar da visível melhora, ainda acho o grupo bem excêntrico.

Cada um de seus vídeos no YouTube tem mais de 1 milhão de visualizações. Já no Spotify, a popularidade é mais baixa que a do SUPERKIND. As buscas também não ajudam muito. Só encontrei o grupo depois de procurar pelo primeiro single. Ao digitar ETERN!TY ou Eternity (sem estilizar), os resultados são diferentes.

aespa

Chegou a vez de falar de aespa. O grupo já ganhou destaque aqui no blog durante seu debut no dia 17 de novembro de 2020 e também com o lançamento do primeiro álbum Savage no ano seguinte. Com uma proposta um pouco diferente de K/DA, aespa chegou como um grupo híbrido, mesclando quatro integrantes reais com seus avatares virtuais. As versões digitais de Ningning, Karina, Winter e Giselle vivem em um mundo chamado KWANGYA e se conectam por meio do portal SYNK:

  • Giselle | æ-Giselle: rapper, vocalista
  • Karina | æ-Karina: líder, dançarina, rapper, vocalista, visual
  • Ningning | æ-Ningning: vocalista, maknae
  • Winter | æ-Winter: vocalista, dançarina

A estreia nos palcos pela SM Entertainment veio com o single Black Mamba, que representa a vilã no universo de aespa. Em 2021, saiu o primeiro álbum do grupo, Savage. No ano seguinte, o quarteto lançou o EP Girls. Entre os lançamentos, teve os singles Forever, Next Level e Dreams Come True em 2021, além de Life’s Too Short e Beautiful Christmas (ft. Red Velvet) em 2022 e Hold on Tight em 2023 — como parte da trilha sonora do filme Tetris.

O nome aespa combina “avatar” e “experience”, com a mensagem de experimentar um novo mundo através de um avatar. Seus fãs são conhecidos pelo nome “MY” — uma representação para “the most precious friend” no universo de KWANGYA. 

Popularidade em alta

Em termos de popularidade, aespa sai facilmente na frente. No YouTube, Welcome to MY World (um dos vídeos mais recentes) tem mais de 13 milhões de visualizações. O MV de Forever soma 51 milhões de views, seguido por Life’s Too Short (55 milhões), Dreams Come True (99 milhões), Girls (126 milhões), Savage (234 milhões), Black Mamba (247 milhões) e Next Level com o maior volume (265 milhões).

No Spotify, o grupo reúne mais de 7 milhões de ouvintes mensais. Next Level se mantém como o maior hit de aespa no streaming. Depois vem Black Mamba, Illusion e Girls.

K/DA

Embora K/DA combine membros reais com virtuais, sua proposta é bem única. O grupo foi criado em 3 de novembro de 2018 pela Riot Games com o objetivo de oferecer uma nova experiência aos gamers de LOL — tendo como apoio para os shows a tecnologia da Realidade Aumentada (AR). A inspiração veio com os personagens Ahri, Akali, Evelynn e Kai’Sa do jogo League of Legends. São elas que representam o grupo e, na maior parte, se apresentam:

  • Ahri: líder, vocalista líder
  • Akali: rapper
  • Evelynn: vocalista líder
  • Kai’Sa: dançarina líder

Para dar voz às músicas, a Riot Games se uniu a cantoras reais, que se revezam dependendo do repertório musical. Quem empresta suas vozes a Ahri e Akali são Miyeon e Soyeon do grupo de K-pop (G)I-dle. Já Evelynn e Kai’Sa têm dublagem das artistas norte-americanas Jaira Beer e Madison Beer para Pop/Stars e das cantoras Bea Miller e Wolftyla para The Baddest. Em Villain, as vozes são de Kim Petras e Madison Beer. More conta com a participação de Lexie Liu, Jaira Burns, Madison Beer, Seraphine (diferente das outras, ela é um personagem de LOL) e a dupla de (G)I-dle.

Drum Go Dum e I’ll Show You completam o repertório de K/DA com o EP All Out, lançado em 2020. A primeira teve participação da dupla inglesa de música eletrônica Aluna, da cantora Bekuh Boom e Wolftyla. Já a segunda contou com as vozes do grupo TWICE e das cantoras Bekuh Boom e Annika Wells. O fandom do grupo recebeu o nome de BLADES, mas cada personagem tem sua base de fãs à parte.

Performance para as finais de LOL

A música de estreia é Pop/Stars, que segue sendo a minha favorita até hoje. Estamos falando no contexto de jogos online, então K/DA é um grupo virtual que gosto de acompanhar. Um dos eventos que mais chamou minha atenção foi a cerimônia de abertura para a final do campeonato mundial de League of Legends em 2018 — reunindo artistas reais e virtuais no mesmo palco. 

Tendência que veio para ficar ou um boom passageiro?

Basta pesquisar um pouco ou acompanhar as reações na web para perceber que a combinação K-pop e AI divide opiniões. Tem quem gosta, como mostram as visualizações expressivas de alguns grupos no YouTube e Spotify. Tem quem ouve apenas por curiosidade. Tem quem acha que os idols virtuais vão tomar o lugar dos artistas reais, passando por cima do sistema de trainees — onde muitos aspirantes à fama passam parte da juventude até o dia do tão sonhado debut nos palcos.

Pelo ponto de vista das empresas por trás da tecnologia de Inteligência Artificial e do uso de avatares, a vantagem principal é poder ultrapassar as limitações físicas e o estresse mental. Sem contar que os recursos digitais avançaram muito nos últimos anos. MAVE é um bom exemplo, com um visual que parece natural inclusive nos mínimos detalhes, como expressões faciais, interação com as câmeras, movimento do cabelo e nas roupas conforme os passos da coreografia.

Muito provavelmente, tudo isso é possível graças ao trabalho nos bastidores de pessoas reais que cantam e dançam. Por meio da captura de movimentos e tecnologias de renderização 3D em tempo real, as idols virtuais ganham vida diante dos nossos olhos.

Era das lives

Inclusive, a própria pandemia pode ter contribuído, de certa forma, para um boom tecnológico no K-pop. Shows antes organizados para um público seleto — seguindo a agenda da turnê de cada grupo — passaram a ser disponibilizados para uma legião de fãs no mundo todo, sem barreiras e em tempo real, através de lives. 

Eu mesma acompanhei o SHINee World em abril de 2021. Em outubro de 2022, vi a live de Yet To Come In Busan, que marcou a última apresentação do BTS como grupo antes do alistamento de Jin. Também estive com o público do Coachella, sem sair de casa, nos anos de 2019 e mais recentemente em 2023, para ver Blackpink. Tudo em tempo real.

Querendo ou não, isso nos deixou um pouco mais acostumados a consumir conteúdo digital. Não estou dizendo que a tecnologia substitui, mas pode agregar. Afinal, considero o cenário similar à comparação entre ler um livro físico e o Kindle. São experiências diferentes e complementares. Vamos usar o Coachella como exemplo. Fora dos Estados Unidos, se não fosse pela tecnologia, eu não poderia acompanhar Blackpink.

Experiências digitais

Muitos dizem que a era do Metaverso está prestes a começar. E os grupos de K-pop estão de olho no potencial que as experiências digitais podem proporcionar. 

Em 2021, o BTS participou do ESCAPE2021, um evento interativo do YouTube. Com avatares do jogo Minecraft, Suga, Jimin, Jungkook, V, Jin, J-Hope e RM se apresentaram virtualmente em um palco pixelado e cantaram Butter e Permission to Dance.

Blackpink seguiu um caminho similar em 2022 ao unir forças com o game PUBG Mobile. Rosé, Lisa, Jisoo e Jennie ganharam avatares em 3D (com um visual bem parecido) para uma apresentação especial no palco virtual do jogo. A colaboração marcou o lançamento da música Ready For Love, além do prêmio Best Metaverse Performance da MTV, e contou com 15.7 milhões de viewers globais (eu estava entre eles, inclusive xD).

K-pop e AI

Ao falar sobre seus planos com a HYBE em entrevista para a Billboard, Bang Si-Hyuk diz que a tecnologia da Inteligência Artificial já está no escopo dos novos projetos: “AI tem se tornado um elemento chave para minhas operações e para a estratégia da HYBE”. Prova disso é a aquisição da Supertone, uma empresa capaz de sintetizar vozes e criar novas para aplicação em diversas áreas.

O presidente do Weverse, Joon Choi, também falou sobre o tema em entrevista para o Mashable. Sua visão sobre AI descarta qualquer substituição nas interações entre idols e fãs na plataforma: “Nosso foco é desenvolver ferramentas melhores para os artistas se comunicarem com os fãs, facilitando o monitoramento e a moderação das conversas”. 

De acordo com um levantamento da Emergen Research, o mercado digital envolvendo avatares deve movimentar US$ 527,58 bilhões no mundo todo até 2030.

Enquanto uns temem que a tecnologia possa tomar o lugar dos humanos, outros aproveitam os recursos disponíveis para ampliar seu alcance. É o caso de Billlie, NMIXX, P1Hamony, por exemplo, na busca por mais interação com os fãs e diferentes oportunidades. Afinal, lives, avatares, AI, Metaverso, VR, AR superam diferentes fusos horários e barreiras de linguagem em formas que os meios tradicionais não poderiam seguir.

Projeções para o futuro

Quando vi Carole & Tuesday, não imaginei na vida real um cenário em que música e AI andam de mãos dadas ou em que uma se sobrepõe à outra. Consequentemente, a combinação K-pop e AI seria vista apenas como um boom passageiro. No máximo, como temática para um anime, webtoon ou K-drama.

Desde lá, muitas coisas mudaram. A tecnologia passou por avanços. A pandemia acelerou a transformação digital no mundo todo. Inteligência Artificial, VR, AR e vários outros recursos tecnológicos ganharam melhorias e passaram a cumprir um papel de maior destaque nos mais diversos setores — comunicação, saúde, educação, agricultura, etc. Aqui estamos falando apenas do K-pop, mas a influência da AI não se limita a ele.

Talvez seja cedo para dizer, mas diante disso e com a minha percepção hoje, acredito que a combinação K-pop e AI não é mais apenas um boom passageiro. Nem mesmo uma tendência, já que faz parte do nosso dia a dia agora, no presente. É uma união com fortes indícios de que veio para ficar. 

Porém, não vejo o combo como uma ameaça, nem como risco de substituições em massa. Onde uma porta se fecha, outra se abre. Além disso, a tecnologia não flui sem mãos humanas nos bastidores para guiar o caminho. Claro que também é preciso regulamentar a área e criar regras para promover um espaço saudável. De qualquer forma, entre K-pop e AI, acredito que um pode complementar o outro, explorando novas oportunidades, conquistando novos públicos e oferecendo novas formas para consumir música.

E aí, o que você acha sobre o tema? Sei que divide opiniões, mas é um assunto que faz parte do nosso dia a dia e já está acontecendo.

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